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Liquidação da planta da Volkswagen de Bruxelas

Sindicatos concordam com demissões em massa

Por Marianne Arens
29 Dezembro 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 20 de dezembro de 2006.

Há quatro semanas os trabalhadores da Volkswagen da planta de Forest, em Bruxelas, entraram em greve e ocuparam a fábrica para protestar contra a decisão da diretoria de transferir a produção do modelo Golf de Bruxelas para fábricas na Alemanha. Porém, as ações dos trabalhadores não foram suficientes para superar a traição dos dirigentes dos sindicatos e impedir que a companhia realizasse seus planos.

Enquanto telegramas expressando solidariedade se acumulavam na fábrica de Forest, os dirigentes dos conselhos de trabalhadores e dos sindicatos levavam a greve dos trabalhadores da Bélgica ao isolamento.

Nenhuma atitude visando uma ação efetiva de solidariedade foi tomada nas seis grandes fábricas da Volkswagen da Alemanha. O Conselho europeu dos trabalhadores da Volkswagen fez tudo o que pôde para transformar qualquer manifestação de solidariedade num mero protesto simbólico, e para evitar que se desenvolvesse uma união baseada na defesa de todos os empregos.

Numa reunião dos conselhos de trabalhadores de várias plantas da Volks na Europa, realizada no dia 7 de dezembro, não foi feito nenhum esforço para defender os empregos. Apesar disso, o presidente do conselho de trabalhadores da Alemanha e europeu, Bernd Osterloh, fez um discurso demagógico declarando que se o comitê executivo da companhia não mudasse sua posição “a favor de nossos colegas... Nós começaremos a pensar em formas concretas de solidariedade. Não no papel, mas através da genuína mobilização física”.

Apesar do conselho dos trabalhadores e sua co-diretoria do comitê econômico da companhia estarem completamente a par dos planos da companhia, Osterloh reivindicou que os administradores da companhia “expusessem seus planos de reestruturação para outras localidades do oeste europeu”.

Quem Osterloh estava querendo enganar? Todos sabem que os conselhos de trabalhadores foram comprados pela diretoria da Volks e que muitas medidas de racionalização foram concebidas em estreita cooperação com os conselhos ou mesmo iniciadas pelos próprios conselhos.

Com a ajuda dada pelo conselho, a diretoria da Volks se sentiu fortalecida para atacar os trabalhadores de Bruxelas.

Na última semana, a direção da Volks anunciou seu novo plano de produção, que consiste na permanência de apenas 2.000 dos 5.370 trabalhadores da planta de Forest. Em 2009, a Volkswagen planeja construir seu novo modelo, o Audi A1, em Bruxelas, estimando uma força de trabalho de 3.000 homens. Entretanto, de acordo com Norbert Steingräber, que falou em nome da direção de Bruxelas, essa decisão está condicionada “à viabilidade da produção do modelo Audi em Bruxelas”.

No dia 18 de dezembro, no meio das negociações com o conselho de trabalhadores, o diretor administrativo, Jos Kayaeerts, declarou que a condição mais importante para a produção do Audi era a diminuição do custo da hora de trabalho. O Primeiro Ministro belga, Guy Verhofstadt, também procurou pressionar os trabalhadores da Volkswagen em Forest, advertindo-os na televisão de que eles deveriam ter aceito o aumento das horas de trabalho e a redução dos salários.

O novo plano de produção visa a expansão da produção do modelo Pólo em Forest para o próximo ano com uma força de trabalho de não mais do que 2.000 homens. Estes trabalhadores deverão trabalhar 38 horas por semana, ao invés das atuais 35 horas. Nenhum pagamento será feito pelas três horas extras de trabalho.

Há promessas vagas de que não haverá mais demissões, e que caso seja necessário, os trabalhadores serão encaminhados para cursos de treinamento e colocados em trabalhos de curto período até 2009, quando seus serviços poderão ser necessários novamente. Porém, até agora, nenhuma decisão concreta foi tomada.

É bem provável que a expectativa da diretoria seja que daqui a dois anos, quando o modelo Audi A1 começar a ser produzido, só restem operários não sindicalizados e de baixo nível salarial. O que é certo é que mais de 2.000 trabalhadores perderão imediatamente seus empregos.

A expansão da produção do Pólo em Bruxelas também ameaça os trabalhadores da Volkswagen em outras localidades onde o Polo é montado atualmente, tais como Pamplona e Martorelli, na Espanha, e Bratislava, na Eslováquia. O novo plano visa o aumento na produção do Polo em Bruxelas de 10.000 unidades para 46.000.

Na segunda-feira (18/12), o presidente do conselho de trabalhadores de Bruxelas, Jan Van Der Poorten, afirmou que as negociações deveriam continuar, pois ainda não havia uma perspectiva concreta de produção. Entretanto, ele declarou à imprensa belga que esperava por uma “simbólica retomada do trabalho” na próxima semana.

É evidente que os sindicatos e o conselho de trabalhadores já aceitaram os planos para a eliminação de empregos, e estão prontos para assinar o acordo. Isto foi confirmado por Manuel Castro, do Sindicato Industrial Belga FTGB, que exigia “melhores garantias para as demissões, como pensões e o retorno ao trabalho em 2007-2008”.

Buscando resolver o impasse, o conselho de trabalhadores e a direção da Volks fecharam um acordo, prevendo compensações relativamente altas para aqueles trabalhadores que aderirem ao programa de demissão voluntária. Os pagamentos compensatórios variam de 25.000 euros a 144.000 euros, dependendo do tempo de trabalho na fábrica - um acordo que visa estimular a demissão dos trabalhadores mais antigos. A diretoria da Volks considera que estas compensações expressam a atitude de um empregador responsável.

Mais de 1.500 trabalhadores anunciaram sua intenção de pedir demissão imediatamente, enquanto ainda há vagas no programa - um número que por si só expressa a falta de confiança dos trabalhadores nos sindicatos e no conselho de trabalhadores. Não há mais nenhuma expectativa que os sindicatos façam algo real para defender os empregos.

O que estimulou a desconfiança dos trabalhadores foram os escândalos de corrupção envolvendo membros do conselho de trabalhadores da Volks de Wolfsburg, na Alemanha. As denúncias se aprofundaram, incluindo recentemente pessoas como o antigo diretor administrativo do conselho de trabalhadores, Hans Jürgen Uhl, que foi um dos fundadores do Conselho Europeu dos trabalhadores da Volkswagen e deputado pelo Partido Social Democrata no parlamento Alemão. Uhl parece ser um dos principais beneficiários dos privilégios e dos pagamentos extraordinários feitos pela direção da Volkswagen a vários dirigentes sindicais.

Na sexta-feira (15/12), repórteres do World Socialist Web Site entrevistaram os trabalhadores da Volks em Wolfsburg durante a troca de turnos, perguntando sua opinião sobre o fato do conselho de trabalhadores concordar em transferir a produção do modelo Golf de Bruxelas para a Alemanha.

Bernd, um operário que trabalha há 26 anos em Wolfsburg, disse: “todos os contratos que contém a assinatura do conselho de trabalhadores devem ser cancelados. Desde o caso de Volkert (dirigente do conselho de trabalhadores que responde a processos por corrupção), nós sabemos que eles podem ser comprados. Por isso, os contratos que eles assinaram não valem nada”.

“E agora, em Bruxelas, eles querem costurar tudo, pois eles sabem o que está acontecendo com os trabalhadores. Os ânimos estão se acirrando. Obviamente o sindicato não nos representa mais. Qual é o sentido de continuar pagando imposto ao sindicato?”

Gisela foi motorista de caminhão de carga por 10 anos. Ela falou da degeneração das condições de trabalho na fábrica de Wolfsburg. De acordo com o novo contrato, os trabalhadores deverão trabalhar 4,5 horas a mais por semana, recebendo 50% a menos das horas-extras trabalhadas.

“Nós não recebemos mais pagamento de horas-extras. Nós trabalhamos todas as sextas-feiras por nada,” disse ela. “Sob tais condições, ninguém tem estímulo para trabalhar. Eu faço apenas o trabalho que sou obrigada a fazer”.

Quando perguntada sobre os membros do conselho de trabalhadores, ela disse: “não se pode confiar neles. Eles não estão nenhum pouco preocupados conosco”.

Outro trabalhador complementou: “quem pode acreditar que Osterloh não sabia de nada sobre o que Volkert fazia? Afinal de contas, ele era seu vice. Ou ele é um estúpido completo ou ele está mentindo”.

Karin relatou que vários representantes dos comitês locais ligados ao conselho de trabalhadores renunciaram aos seus cargos porque não conseguiam mais justificar as decisões que contrariavam os interesses dos trabalhadores. “Os representantes renunciaram um após o outro,” disse ela.

“É muito difícil encontrar algum membro do conselho de trabalhadores. Quando alguém os vê, eles estão dirigindo por aí, num dos carros da companhia. Isto diz tudo. Aos meus olhos eles não são representantes dos trabalhadores”.

Karin disse ainda que o trabalho mudou completamente. Trabalhadores estáveis foram demitidos, e o humor na fábrica chegou ao mínimo possível.

Karl também expressou sua falta de confiança no conselho de trabalhadores. “Klaus Volkert foi quem nos levou a perder completamente a confiança no conselho. Hoje não confiamos em nenhum deles,” disse Karl.

“Em quem se pode confiar? É visível que hoje se tornou prática comum no sindicato pensar só em si mesmo. Não há mais compromisso social”.

Karl trabalha na Volks de Wolfsburg desde 2002, num regime de trabalho baseado no contrato “5.000 marcam 5.000” que deu emprego para 5.000 novos trabalhadores sob piores condições e menores salários. Ele disse que “desde então nós temos sido apunhalados por contínuos cortes... O ambiente de trabalho tem piorado e a tensão na fábrica aumentado”.

 



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