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Alemanha: manifestações das massas contra os cortes de benefícios sociais

Por nossos repórteres
31 Octubre 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 24 de outubro de 2006.

No último sábado, aproximadamente 200.000 trabalhadores e jovens saíram às ruas em cinco grandes cidades alemãs (Berlin, Stuttgart, Frankfurt, Dortmund e Munique) para protestar contra os cortes de benefícios sociais impostos pelo governo anterior, composto pelo Partido Social-Democrata (PSD) e PartidoVerde, e pelo governo atual, formado pela coligação entre os partidos conservadores - União Democrática Cristã (UDC) e União Social Cristã (USC) - e o PSD.

As manifestações foram organizadas pela Federação dos Sindicatos alemães (DGB). Os sindicalistas expressaram sua indignação e frustração diante das políticas do atual governo e de seu antecessor, que elevou a desigualdade social a níveis sem precedentes.

Os discursos dos sindicalistas contrastaram com sua colaboração diária com o governo. Muitos contratos recentes que resultaram no fechamento de fábricas, perda de empregos, cortes nos salários e ataques às condições de trabalho continham a assinatura dos mesmos sindicalistas que denunciaram, nas manifestações de sábado, os cortes de benefícios, o desemprego e o crescimento da miséria entre a população trabalhadora.

O cinismo dos sindicalistas foi reforçado pelo seu fracasso em organizar um único protesto numa cidade do leste alemão, onde o desemprego e a miséria são o dobro daquelas existentes no oeste do país. Mesmo ignorados pelos burocratas do sindicato, muitos trabalhadores do leste viajaram a Berlim para expressar seu desgosto e indignação com a política do governo, bem como em relação ao vergonhoso papel representado pelos próprios sindicalistas.

Por volta de 60.000 trabalhadores se manifestaram na capital Alemã, Berlin, carregando cartazes e faixas de protesto contra as políticas do governo que conduziram a uma deterioração das condições de vida de milhões de trabalhadores alemães. Muitos cartazes abordavam pontos específicos, denunciando os ataques de amplo alcance do governo em relação a questões sociais, como educação (o aumento do número de alunos por sala de aula e a falta de professores), o declínio na aprendizagem dos jovens e o corte dos subsídios (incluindo planos executados pelo PSD para aumentar a idade mínima da aposentadoria para 67 anos). Devido ao crescimento da miséria na Alemanha, muitos manifestantes vestiam coletes contendo o slogan “Empregados, mas Pobres”.

Fundamental para as manifestações foi a discussão pública, da semana passada, sobre a então chamada classe baixa na Alemanha. Uma pesquisa oficial revelou a existência de amplos níveis de pobreza em todo o país, incluindo mais de 25% de todos os cidadãos que vivem no leste da Alemanha. Outras estatísticas apontavam para o crescimento da insegurança e a crescente desilusão em relação a todos os partidos políticos oficiais.

A medida que tem contribuído mais para a deterioração das condições de vida é a Hartz IV, lei anti-benefícios implementada pelo PSD-Verde. Enquanto os sindicalistas, nas manifestações, chamavam atenção para o crescimento da divisão social na Alemanha e a presente ameaça à democracia, evitava-se qualquer menção ao seu próprio papel no desenvolvimento e implementação da Hartz IV.

O principal orador do comício da cidade de Dortmund foi Jürgen Peters, o dirigente do sindicato da IG Metall, o maior sindicato da Alemanha e um dos maiores do mundo. Falando do centro de ferro e aço do Ruhr, Peters criticou as políticas da atual coligação, mas não fez nenhuma menção ao seu próprio papel na implementação de tais políticas anti-sociais. Como presidente do sindicato da IG Metall e líder do PSD, Peters enviou membros de seu sindicato para participar na Comissão da Hartz. Peter Hartz, outro líder do PSD e companheiro de Peters no partido e na IG Metall, é um dos maiores defensores de cortes de benefícios da história do pós-guerra na Alemanha.

O principal orador em Berlin, Frank Bsirske, presidente do sindicato dos servidores públicos- Verdi - e membro do Partido Verde, reafirmou a postura hipócrita da burocracia sindicalista. Bsirske denunciou o crescimento da desigualdade social na sociedade alemã, expressa pelo crescente lucro e pelo boom dos salários dos executivos das grandes empresas e dos bancos, por um lado, e a crescente miséria social, por outro.

Ele afirmou que a desigualdade social “não foi um problema demográfico, mas uma bomba-relógio social” que teve de ser “desarmada”. Ele atacou as propostas do governo que visam aumentar o imposto sobre valor de mercadorias, que, segundo ele, colocará em risco a recuperação da economia alemã; exigiu um salário mínimo, e reivindicou uma distribuição mais justa dos lucros. Num duro golpe aos trabalhadores do leste europeu, Bsirske denunciou os trabalhadores poloneses que, segundo ele, estão colocanso em risco as perspectivas dos trabalhadores alemães, pois estão dispostos a trabalhar por um euro por hora, no estado de Rhineland.

Enquanto criticava o crescimento da pobreza e do “ranking” de “trabalhadores miseráveis” na Alemanha, Bsirske não mencionou a sua responsabilidade ao assistir tal processo. Foi Bsirske quem colaborou com o Senador de Berlin, Harald Wolf, para impor um corte de 10% nos salários dos trabalhadores do transporte de Berlin; neste ano, o sindicato Verdi desempenhou papel fundamental de fura-greve numa série de greves de médicos e servidores da saúde. Além disso, durante os sete anos de governo do PSD-Verde, o Verdi desempenhou papel decisivo na supressão da oposição à legislação deste governo anti-benefícios.

Em diversos momentos, o discurso de Bsirske foi interrompido por protestos de uma delegação de trabalhadores que frequentemente entram em greve em Berlin, e que ficaram com seus cartazes próximos ao palanque, de frente para a multidão. Trabalhadores da fábrica da Bosch Siemens em Berlin gritavam “Nós queremos greve!”. Dois terços dos trabalhadores aprovaram recentemente a continuidade da greve, a fim de defender seus empregos. Entretanto, os líderes sindicais que os “representam” estão aconselhando-os a voltarem ao trabalho.

Em Stuttgart, o presidente da DGB, Michael Sommer, advertiu sobre as conseqüências de longo prazo para a democracia na Alemanha advindas do crescimento da desigualdade social, declarando que “as vitórias nas eleições dos neo-nazis, a descrença cada vez maior na política, o afastamento dos partidos das pessoas, o fato de menos e menos pessoas tomarem parte nas eleições deveria ser um aviso, e não apenas para nós”.

Quando Sommer (membro do PSD desde 1981) fala de um “aviso, e não apenas para nós”, ele está advertindo os círculos de decisões e negócios alemães para o fato de que eles não podem excluir os sindicatos da elaboração de políticas futuras. Sommer insistiu em criticar os planos do Vice-chanceler Franz Müntefering (PSD) de aumentar a idade mínima para aposentadoria e reivindicou o fim à política de ultimatos, que caracterizou o último período do governo do PSD-Verde, de Gerhard Schöder.

Há dois anos, amplas mobilizações contra a Hartz IV e outros cortes de benefícios exerceram um papel fundamental na decisão do então Chanceler Schröder em antecipar as eleições, a fim de abrir caminho para um governo mais hábil em lidar com a situação e dar prosseguimento a essa agenda de grandes negociações. Significativamente, a onda de protestos e manifestações contra a Hartz IV em 2003 e 2004 foi organizada independentemente dos sindicatos.

Nestes últimos tempos, os sindicalistas têm mandado claros sinais à coligação do governo. Nas manifestações de sábado, eles falaram por cima dos manifestantes. Seus discursos foram endereçados aos mais influentes círculos econômicos e políticos da burguesia alemã. “Para o seu próprio bem, nos coloque a bordo, e nós faremos o máximo para bloquear um levante social”. Tal era o conteúdo oculto dos discursos vindos dos palanques.

E a mensagem foi recebida. Entre aqueles que aplaudiam mais calorosamente os discursos em Berlin estava o partido de esquerda - Partido Social-Democrata (PSD) - o senador das finanças de Berlin, Harald Wolf, e o presidente do partido de esquerda-PDS, Lothar Bisky. Na primeira fileira do comício de Frankfurt estava o velho presidente do sindicato da IG Metall, Franz Steinkühler, que iniciou a guinada à direita do sindicato em 1980. Forçado a deixar o sindicato em 1993 devido a acusações internas do sindicato, Steinkühler atualmente é proprietário e gerente consultivo.

Membros e apoiadores do Socialist Equality Party fizeram intervenções em vários comícios, distribuindo milhares de cópias do panfleto “Lutar contra os cortes de empregos e benefícios numa perspectiva socialista internacional”, que foi muito bem recebido pelos manifestantes. Dezenas de assinaturas foram coletadas em apoio ao manifesto do PSI do Sri Lanka, que reivindica uma investigação sobre a morte de um dos colaboradores do PSI, Sivaparagasam Mariyadas.