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Sindicato dos metalúrgicos americano diz aos operários que eles devem “esperar sacrifícios” em conseqüência dos novos contratos

Por Jerry White
27 Janeiro 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 22 de janeiro de 2007 .

A burocracia da United Auto Workers (UAW), o Sindicato dos Trabalhadores das empresas automobilísticas, se juntou ao coro dos executivos da indústria automobilística, analistas e repórteres que pedem aos metalúrgicos americanos que aceitem a eliminação das suas tão sofridas conquistas a fim de “salvar” a indústria automobilística americana.

Com as negociações dos acordos trabalhistas para os próximos anos com a General Motors, Ford e a Chrysler, que estarão prontos para serem colocados em prática nos próximos meses - o velho contrato expira em 14 de Setembro - os dirigentes da UAW declararam publicamente que os trabalhadores representados pelo sindicato devem esperar a redução dos salários, o corte dos benefícios e uma piora nas condições de trabalho. Durante muito tempo, tudo isso era considerado intocável pelas companhias automobilísticas.

O Detroit News do dia 16 de janeiro publicou, como manchete principal da capa, “UAW: Esperem Sacrifício”. O artigo iniciava afirmando que “a mensagem dos dirigentes da UAW durante os preparativos das negociações de contratos não é a linha dura do passado. Os líderes dos trabalhadores falam aos operários sobre os sacrifícios e sobre a necessidade de ajudar os fabricantes de automóveis de Detroit a se tornarem competitivos novamente”.

No mês passado, o jornal noticiou que o vice-presidente da UAW, Cal Rapson, falou aos dirigentes dos sindicatos das fábricas da GM de todo o país que “a forma como nós conduzimos as negociações no passado, quando a General Motors obtinha altos lucros, deverá mudar a partir de agora”. De acordo com uma recente nota aos trabalhadores de Warren, Ohio, Rapson “comentou que se nós não mudássemos, nós não sobreviveríamos no futuro”.

James Kaster, o presidente da UAW - Local 1714, da GM de Lordstown, Ohio, disse: “se nós não produzirmos lucro, nós não teremos uma fábrica para trabalhar”. Observando que os sindicatos locais têm um programa em andamento para “instruir os trabalhadores, fazendo-os compreender porque eles devem se interessar pelo sucesso financeiro da GM”, Kaster afirmou que “você não pode apenas dizer: ‘ei, nós faremos a coisa ao modo antigo’. Estamos vivendo uma grande mudança”.

A situação não é diferente na Ford, que perdeu 5,2 bilhões de dólares no ano passado. Jim Stoufer, presidente da UAW - Local 249 da Ford localizada nas proximidades de St. Louis, falou ao Detroit News que “esse ano está muito complicado. O bom senso nos diz que este ano será duro. Nós teremos que colaborar com a Ford e mantê-la competitiva”.

Resumindo a posição da burocracia da UAW para as negociações contratuais que estão por vir, o vice-presidente do sindicato, Bob King, disse: “nós fizemos a escolha consciente de pôr de lado todas as adversidades”.

A colaboração aberta com os chefes do setor automobilístico não é algo novo para a burocracia da UAW. Há muito tempo o sindicato abandonou quaisquer “adversidades” e desde os anos de 1980 adotou oficialmente a política corporativista da “parceria trabalhador-administração”. Longe de lutar pela defesa dos empregos e pelas condições de vida, a UAW tem insistido que os operários paguem pela crise da indústria que não foi causada por eles, mas é resultado da ação de executivos milionários e de ricos investidores que sacrificaram a longa vida destas companhias a fim de obterem os maiores lucros financeiros imediatos.

Nos últimos seis anos, entretanto, a indústria automobilística americana, e em particular as duas indústrias mais antigas do ramo - a GM e a Ford - tem sofrido pesados golpes causados pela crescente competição desencadeada pela crise de super-produção no mercado automobilístico mundial e pela queda da taxa de lucro. A perspectiva deste ano é que a participação dos Três Grandes Produtores da indústria automobilística americana no mercado do país caia abaixo dos 50%, perdendo espaço para os produtores asiáticos, tais como a Toyota, que continuam aumentando a produção e ampliando a sua participação no mercado.

A resposta dos produtores de automóveis e da burocracia da UAW tem sido um programa de cortes de empregos para reduzir o tamanho das empresas e se adaptar a uma porção do mercado muito menor. Desde o ano 2000, a GM, a Ford e a alemã Chrysler cortaram ou anunciaram futuros cortes de 140.000 empregos, o que representa cerca de um terço de toda a sua força de trabalho nos EUA.

Sem qualquer expectativa de que a UAW fizesse qualquer coisa para defender seus empregos, mais de 86.000 trabalhadores da GM, Ford e do produtor de auto-peças Delphi já assinaram acordos de demissão para deixarem a indústria.

Durante vários anos a burocracia da UAW baseou a defesa de seus “bônus” e privilégios na manutenção dos empregos - e no recebimento das contribuições sindicais - de uma camada mais antiga de trabalhadores que permaneciam nas fábricas. A nova estratégia do sindicato a partir de agora é a colaboração com as indústrias de automóvel no sentido de acabar com essa parcela de trabalhadores que passaram a receber salários e benefícios mais elevados e substituí-los por trabalhadores mais jovens e mais facilmente exploráveis, que também terão que pagar as contribuições ao sindicato.

As concessões que o sindicato já fez são apenas meio caminho para mais ataques. Na Delphi a UAW aceitou a redução dos salários de 27 para 14 dólares por hora trabalhada, e em diversas plantas da Chrysler o sindicato permitiu que a empresa contratasse trabalhadores temporários - por 18 dólares por hora - que podem ser demitidos a qualquer momento. Comenta-se que as companhias deverão fazer mais cortes nos salários neste ano, incluindo a implantação do “compartilhamento nos lucros” que significa que somente haveria aumento nos salários se houvesse aumento nos lucros e na produtividade.

O ano passado a UAW assinou um acordo que fez com que, pela primeira vez, os aposentados da GM e da Ford passassem a pagar uma parte significativa dos seus planos de saúde, enquanto trabalhadores ativos eram forçados a auxiliar as companhias, adiando o aumento dos salários para um futuro indeterminado. Para impor tais concessões, que representam bilhões de dólares, a UAW impediu que os trabalhadores aposentados votassem sobre a retirada de seus benefícios. A UAW recorreu ao tribunal para impedir que trabalhadores antigos os processassem em defesa de seus direitos.

Mesmo antes do início das negociações começarem já se espera que a UAW conceda a Chrysler Corporation cortes similares nos benefícios médicos para os aposentados e trabalhadores ativos.

O Detroit News divulgou que os “diretores da GM disseram que a sua intenção é reduzir em 5 bilhões de dólares anuais a despesa em assistência médica” e que o Presidente da companhia, Troy Clarke, disse recentemente que a assistência médica dos aposentados era assunto de interesse particular. Além disso, as companhias deixaram claro que elas querem eliminar os chamados Bancos de Trabalho, que compensam os trabalhadores demitidos pela quebra do contrato enquanto eles permanecerem desempregados.

O presidente da UAW, Ronald Gettelfinger, demonstrou, em seu depoimento na convenção constitucional da UAW realizada em Las Vegas em junho do ano passado, que a intenção do sindicato é de colaborar com os demais ataques contra os metalúrgicos. “Hoje é claro que nossos desafios são diferentes de todos aqueles que já enfrentamos no passado, devido principalmente à globalização”, disse ele, acrescentando que, “gostando ou não, estes desafios não são do tipo que podem ser descartados. Eles exigem soluções de longo prazo - e nós devemos nos envolver na busca de tais soluções”.

Falando ao World Socialist Web Site (WSWS), um trabalhador da Chrysler de Detroit descreveu as atuais condições existentes nas fábricas: “a companhia está construindo uma grande obra de ampliação entre a estamparia de Warren e a Warren Caminhões. Eles pretendem trazer empresas de fora para operar dentro da fábrica, empregando seus próprios trabalhadores que são pagos com um salário muito mais baixo do que o nosso. Em Toledo -Ohio, a fábrica da Jeep da Daimler Chrysler tem 11 empresas separadas operando dentro da mesma fábrica”.

Comenta-se que a Chrysler anunciará, em meados de fevereiro, seu plano de “reestruturação”, que causará a eliminação de centenas de empregos, reduzindo o custo e o tempo necessários para produzir um veículo. No mês passado a Chrysler anunciou a demissão de 250 trabalhadores na fábrica da Avenida Mack, em Detroit.

“Nós estamos todos preocupados com o que acontecerá no dia 14 de fevereiro, quando o plano de reestruturação da companhia será anunciado. Pensamos que haverá muitas demissões e ofertas de acordos”, continuou um trabalhador da Chrysler. “O sindicato não faz nada. O dirigente comprado recebe o salário de 12 horas por dia para ficar sentado numa sala brincando com jogos de computador. Muitos trabalhadores consideram que não há problema que eles tragam trabalhadores por um salário mais baixo, desde que eles mantenham os nossos salários como estão. Eu digo a eles que não haverá mais iniciantes contratados por um salário de 22 dólares por hora de trabalho - será por 8 dólares por hora de trabalho. Nós seremos os últimos trabalhadores metalúrgicos que ganharão 30 dólares por hora”.

“Eles dizem que a indústria automobilística está falindo porque nós ganhamos muito dinheiro e temos muitos benefícios. Isto não é verdade. Nós fazemos nosso trabalho e nós estamos trabalhando mais duro do que nunca. Nós não tomamos decisões sobre o que construir”.

“Na década de 1970 dezenas de milhares de pessoas trabalhavam para essas companhias. Hoje nós somos menos de 30% da força de trabalho desde que eu comecei a trabalhar em meados da década de 1990. A Chrysler foi para a cidade de Warren por causa dos abatimentos nos impostos, dizendo que eles queriam gerar empregos. Ao contrário, eles eliminaram dezenas de milhares de empregos”.

“Há pessoas lá roubando comida porque são pobres. Em Detroit, crianças estão atrasadas nos estudos por causa da falta de escolas. Aqueles que ainda estão trabalhando estão sendo sobrecarregados. Eles não recebem mais as horas-extras e muitos estão perdendo suas casas. Os jornais não relatam isso, mas eu ouvi que pelos menos três trabalhadores cometeram suicídio por estarem desesperados - e eles estão nos dizendo que a economia vai bem. Por que nós estamos gastando milhões no Iraque enquanto temos estas condições em casa?”

“Todas as vezes que o sindicato assina um novo acordo nós perdemos alguma coisa. Nós pagamos 65 dólares de contribuição sindical por mês para a UAW e não temos nenhuma representação”.