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Dois caminhoneiros morrem enquanto os protestos contra a alta dos combustíveis se espalham pela Ásia e Europa

Por Paul Mitchell
19 de junho de 2008

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Dois caminhoneiros, um na Espanha e outro em Portugal foram mortos durante os protestos contra o aumento dos preços dos combustíveis que dispararam na Europa e na Ásia.

As disputas envolvendo pescadores, fazendeiros e caminhoneiros tem se tornado cada vez mais explosivas.

Julio Cervilla Soto, um caminhoneiro que trabalhava por conta própria, morreu próximo ao supermercado atacadista Merca Granada ao tentar parar uma van que o atropelou. Um caminhoneiro português morreu ao tentar parar uma carreta na cidade de Alcanena, ao norte de Lisboa.

A greve é encabeçada por caminhoneiros autônomos, que são responsáveis por 20% dos 380 mil caminhoneiros da Espanha. Eles dizem que só as grandes companhias podem absorver o impacto do aumento de 36% no preço dos combustíveis no último ano, porque elas ainda podem reduzir custos.

Juan Antonio, que possuí dois caminhões, disse ao El País “Eu ganho 85 centavos por kilómetro. Disso, 50 centavos vai pra pagar o diesel. Em cima disso, ainda temos que pagar segurança social, o motorista e a manutenção. Só pra trocar os pneus, que tem que ser feito uma vez por ano, custa 6 mil euros.”

Alberto disse ainda: “Você quer que eu te diga como que o aumento do diesel me afeta? Eu fui pagar meu café hoje de manhã e minha conta no banco não tinha nenhum centavo. É assim que o preço dos combustíveis me afeta. Pra mim não faz a mínima diferença ficar parado aqui, eu não ia ganhar muito mais do que isso se eu estivesse trabalhando.”

O primeiro ministro José Luis Rodríguez Zapatero, do Patido Socialista, ofereceu aos caminhoneiros empréstimos de emergência e um pacote de aposentadoria antecipada, mas se recusa a garantir a tarifa mínima que eles reivindicam, dizendo que seria ilegal sob a legislação de competição da União Européia.

O Ministro do Interior Alfredo Pérez Rubalcaba disse que mais de 50 pessoas foram presas desde o início da greve e que o governo mobilizou mais de 25 mil policiais para quebrar as barricadas e escortar as carretas. Eles foram orientados para agir com “força e firmeza máxima.”

“As forças de segurança devem agir para manter as rodovias livres e garantir a distribuição dos produtos básicos” disse Rubalcaba.

Desde o início da greve, os suprimentos de carne, pescados e frutas para Madri estão escassos e uma corrida aos postos de gasolina causou falta de combustível na Capital, Barcelona e outras grandes cidades. Fabricantes de automóveis tiveram que cortar a produção, abalada pea produção “just-in-time”; companhias de transporte de balsas cancelaram várias viagens para as Ilhas Balearic e Palma; mais da metade dos canteiros de obra em Málaga foram paralisadas.

O governo chamou a tropa de choque para quebrar os protestos nas cidades e liberar as fronteiras. Carreteiros estrangeiros alegaram que forma mantidos como reféns durante dois dias sem água ou comida na fronteira com a França em La Jonquera. Na fronteira de Irún a polícia Basca prendeu dois piquetes, sob acusação de que eles teriam ameaçado um motorista de uma van com uma chave de fenda.

Cerca de 21 pessoas, entre elas 13 policiais, ficaram feridos em Alméria durante um conflito em frente a Câmara Municipal envolvendo pelo menos 2500 fazendeiros que exigiam redução na preço do diesel. Em Sevilha, cerca de 30 pessoas ficaram feridas, incluindo 8 policiais, em um conflito em frente ao Parlamento Andaluz, onde houve 7 prisões.

Em Alicante, num estado industrial em San Isidro, um caminhoneiro de 43 anos que furava a greve teve seu caminhão incendiado enquanto enquanto ele dormia dentro e sofreu queimaduras em um quarto de seu corpo. Carretas também foram incendiadas em Murcia no sul e em Arazuri, no norte.

Na quarta-feira, pescadores queimaram pneus na região de Pontevedra, bloqueando temporariamente uma ponte em Portugal. Outros que tentavam entrar no Parlamento Regional da Galícia entraram em conflito com a polícia em Santiago de Compostela.

Em Portugal, as últimas notícias que os carreteiros que estiveram em greve desde segunda-feira aceitaram um pacote de medidas negociadas pelo governo. Assim como na Espanha, os supermercados começaram a sofrer escassez de alimentos frescos e longas filas se acumularam nos postos de abastecimento. O principal aeroporto de Lisboa ficou sem combustível de aviação. Pescadores bloquearama ponte de Guadiana que conecta o sul de Portugal com a Espanha.

De primeiro a 3 de Junho, houve um boicote nacional às companhias British Petroleum, Galp e Repsol, em protesto contra os lucros recordes que elas acabaram de anunciar.

O Primeiro Ministro José Socrates se recusou a tomar qualquer ação contra o aumento dos preços, mas prometeu instalar placas com os preços dos combustíveis nos postos de serviços e a criar um site informando o preço dos combustíveis. Ele ainda pediu que o povo esperasse até o aumento do salário mínimo em 2009.

Ainda houve protestos em vários outros locais da Europa. Milhares de trabalhadores fizeram uma paralisação na Polônia para protestar contra o aumento dos preços. O coordenador regional no sul da Silesia, Rajmund Nierychlo, disse: “O protesto envolveu não apenas caminhões, mas também vans, ônibus e taxis, assim como transporte urbano em geral. Todos os tipos de veículos.”

Fora o aumento dos preços dos combustíveis, os caminhoneiros também se queixam dos altos custos dos pedágios, os longos atrasos para cruzar as fronteiras da Europa do Leste e a competição entre esses países, que compram combustíveis muito mais baratos da Rússia.

O especialista do mercado de combustíveis Andrzej Szczeniak explicou: “Em relação aos preços e taxas de combustíveis, não devemos nos comparar com o resto da Europa, mas sim com nossos vizinhos do Leste. Os motoristas poloneses, digo carreteiros e transportadoras comerciais, estão competindo com combustíveis e mão de obra muito barata do Leste Europeu. E se você comparar os preços do diesel na Polônia com Belarus, Ucrânia ou Russia, nós não temos como competir. A segunda coisa, é que comparando com outros países da assim chamada ”Nova Europa”, nós não estamos em uma boa posição, porque nossas taxas (as da Polônia) são as mais altas de todas. O terceiro problema é que o VAT de 22%-uma taxa extremamente alta na Polônia-não é dedutível dos custos de produção.”

Na Escócia, fazendeiros, pescadores e motoristas estão se reunindo para discutir possíveis ações futuras seguidas de um protesto em frente ao Parlamento Escocês em Edinburgo. David McCutcheon, o gerente de uma empresa de transportes disse: “Há muita raiva e frustração e as coisas estão começando a ficar fora de controle, isso vai piorar, principalmente quando as firmas começarem a falir.”

“O povo está se preparando para uma ação militante. Os espanhóis estão bloqueando as estradas e aqui vai acontecer a mesma coisa mais cedo ou mais tarde. O país está rumando para uma explosão e uma greve geral.”

“Isso não é apenas um bando de caminhoneiros buscando ganhar o seu. Nós estamos lutando contra o custo dos combustíveis que está afetando toda a economia.”

Um protesto está marcado para o mês que vem, em Londres, quando centenas de motoristas de caminhões tanque que trabalham para a Shell devem entrar em greve contra os baixos salários, que hoje valem menos que em 1992, apesar de trabalharem 11 horas a mais por semana.

Carreteiros holandeses também fizeram uma operação tartaruga na quinta-feira.

Ásia

Na índia uma greve de 1 dia, chamada pela Federação de Comerciantes e Fabricantes de Kashmir, para protestar contra o aumento de 10% no preço dos combustíveis, causou o fechamento de várias lojas e bancos no estado de Jammu-Kashmir. “Nós etamos totalmente indignados como aumento dos itens de primeira necessidade, petróleo, diesel e gás de cozinha. Por isso pedimos que todas as pessoas participem da greve no dia 11 de Junho”, disse o grupo num comunicado.

A ação coincidiu com o terceiro dia da greve chamada pelos operadores do sistema de transportes, exigindo um aumento das tarifas. O presidente da Associação de Motoristas de Kashmir, Ghulam Muhammad Bhat disse: “As tarifas dos transportes não são reajustadas desde 2005, enquanto os preços dos combustíveis aumentaram constantemente durante este período. Isto nos colocou uma enorme pressão e a gente está sofrendo perdas consideráveis.

“Nós informamos o governo sobre o aumento no preço das peças automotivas mas eles não nos responderam. E a escalada sem precedentes no preço do diesel nos forçou a entrar em greve para exigir nossas reivindicações” disse Bhat.

Durante a greve, os manifestantes atiraram pedras no carro de um político, Manzoor Ahmed, e soldados paramilitares atiraram gás lacrimogênio e usaram cacetetes para impedir que eles se dirigissem para Srinagar, a capital do estado. Ao menos 20 pessoas foram presas durante um protesto em frente a Secretaria Municipal.

Na Malásia, o maior produtor de petróleo na Ásia, grupos de oposição planejam grandes protestos de massas contra o aumeto de 41% no preço dos combustíveis. O Primeiro Ministro Abdulah Ahmad Badawi tentou dispersar a oposição dizendo: “O governo sente que o povo ainda está tentando superar a situação dos combustíveis” e prometeu que os preços não aumentariam novamente este ano.

Shamsul Iskandar Akin, um líder da GERAMM Juventude Contra o Aumento dos Preços rejeitou o argumento de Abdullah e disse que o aumento foi repassado para os alimentos e para o transporte, causando ainda mais dificuldades para os trabalhadores. Uma passeata está planejada para hoje em Kuala Lumpur, onde o monopólio estatal de combustíveis é sediado. A polícia alertou que nenhuma autorização havia sido emitida para a passeata e que os manifestantes seriam presos.

No Nepal, protestos violentos tomaram conta do país na terça-feira, logo depois que a NOC (Nepal Oil Corporation) aumentou o preço dos combustíveis em 25%, seguindo o aumento dos preços na India, de onde vem o petróleo. A situação foi ainda piorada pela India, o principal fornecedor de petróleo, que cortou as exportações para o país em 80% esta semana, em retaliação à falta de pagamento da NOC, que já está praticamente falida. Purushottam Ojha, um executivo da NOC usou a crise para anunciar que agora será permitido às companhias privadas importar combustível “de qualquer parte do mundo”, terminando o monopólio da India.

A Federação Nacional de Transportes do Nepal publicou uma declaração dizendo que as tarifas de ônibus para longa distância aumentariam 30% e as tarifas de ônibus e taxi para curta distância aumentariam 35%.

Estudantes queimaram pneus, bloqueando estradas na capital e desligando a auto estrada leste-oeste, a rota mais importante de abastecimento da India. Protestos foram noticiados em outras áreas do país.

Protestos similares aconteceram em outubro de 2007. Em outras duas ocasiões, o governo tentou aumentar os preços, mas grandes protestos forçaram o governo a recuar. A última tentativa do governo de Girija Prasad Koirala de aumentar o preço dos combustíveis ocorreu às vésperas das eleições de Abril e contribuiu para a derrota de seu partido no Congresso Nepalês.

Na Coréia do Sul vários portos estão parados, bloqueados pelos caminhoneiros que aprovaram greve na segunda-feira, em protesto contra o aumento do preço dos combustíveis. Eles estão exigindo uma redução dos preços dos combustíveis, o aumento das tarifas de transporte e uma padronização da tabela de preços que possam garantir um salário mínimo. Uma greve no maior porto do país, Busan, que é responsável por três quartos das exportações está atrasando quase 90% do movimento dos containers.

Na Tailândia, milhares de caminhoneiros entraram em greve para protestar contra a alta dos preços dos combustíveis. Tingyu Kongongkhan, o secretário geral da Associação Tailandesa de Transporte Terrestre, declarou na 1uarta-feira que depois da paralisação de 120 mil caminhoneiros em várias províncias “nós apenas mostramos nosso poder, estacionando os caminhões na rodovia, mas se o governo não aceitar nossas reivindicações, a federação decidiu fazer o dia 17 de Junho o “dia D”. Traremos pelo menos 100 mil caminhões para Bangkok.” A federação exige que o governo venda diesel por 3 baht (R$ 0,20) por litro a menos que o preço do mercado e subsidie a conversão dos caminhões para gás natural.

A crise dos combustíveis também afetou pescadores e fazendeiros. O presidente da Federação Tailandesa de Pescadores, Mana Sriptak, disse que mais da metade de seus membros, 50 mil barcos de pesca, estão ancorados nos portos devido ao alto preço do diesel. Alguns foram queimados em protesto.

Esta semana em Hong Kong centenas de carreteiros marcharam em direção à sede do governo, exigindo uma reunião com o executivo chefe Donald Tsang Yam-Kuen. A polícia quebrou os vidros dos seus caminhões e os guincharam depois deles terem paralisado o distrito central. Um organizador disse que o setor de transportes estava sendo mutilado pela alta dos combustíveis, que sofreram um aumento de quase 20% entre dezembro e Maio.

“A maior parte da indústria está sendo forçada a fechar os negócios e alguns tem que vender seus containers, trailers e tratores” disse Tang Chi-Kueng, da Associação do Serviço Público de Ônibus. Thomas Tam, diretor da Associação dos Trabalhadores de Transporte de Lixo, disse que vários trabalhadores estão planejando entrar em greve pela primeira vez em 12 anos.