O Partido dos Trabalhadores escolhe um magnata da indústria têxtil como candidato

25 June 2002

Numa manobra eleitoral que visa ao mesmo tempo a ganhar votos e a aplacar os investidores externos, o Partido dos Trabalhadores (PT) escolheu um multimilionário magnata da indústria têxtil e dirigente da ala direita do Partido Liberal (PL) como seu candidato a vice-presidente nas eleições marcadas para outubro deste ano.

O perene candidato a presidente do PT, ex-líder sindical dos metalúrgicos de São Paulo, Luiz Inácio “Lula” da Silva, concorrerá na mesma chapa com José Alencar, o proprietário da Coteminas, a maior empresa têxtil do Brasil, avaliada em mais de 500 milhões de dólares.

A fim de consolidar a aliança, Lula tinha de neutralizar a oposição dos intelectuais esquerdistas e operários militantes que no passado têm apoiado o PT. Para Alencar, o problema era contornar a oposição da Igreja Universal do Reino de Deus, movimento evangélico cristão que forma a principal base do PL, muitos de cujos representantes eleitos são líderes da igreja.

Alencar, anteriormente vice-presidente da Confederação Nacional das Indústrias, emprega cerca de 16 mil operários em 11 indústrias têxteis concentradas em Minhas Gerais, seu estado natal.

Os burocratas ex-dirigentes sindicais direitistas e políticos que controlam o PT apóiam a aliança, argumentando que Alencar serviria de “anteparo” às pressões dos principais investidores sob alegação de que o governo petista significaria uma catástrofe para o Brasil.

Os maiores bancos e firmas investidoras ligados a Wall Street culparam a recente pressão sobre a moeda brasileira e a queda brusca na cotação dos títulos governamentais às pesquisas que mostram Lula batendo seu mais próximo rival José Serra, o candidato da coligação governamental situacionista, com uma margem de 2 a 1. Os investidores têm apontado as prévias do PT como ameaça de inadimplência ou a renegociação da dívida externa nacional como motivo de preocupação..

No propósito de acalmar os investidores externos, o PT e Lula têm se comprometido a respeitar todos os acordos econômicos assinados pelo atual governo e espera-se que divulguem no fim do mês o mais conservador programa econômico do partido jamais visto. O partido também despachou recentemente a Nova Iorque e Washington seu mais categorizado assessor econômico com o propósito de garantir que o governo de Lula defenderá a propriedade privada e o lucro.

A aliança com os liberais significará inevitavelmente uma mudança ainda mais para a direita de Lula. Enquanto o PT tem-se aliado há bastante tempo com o Movimento dos Trabalhadores sem Terra, um grupo que promove a ocupação de propriedades rurais para pressionar o governo a realizar uma reforma agrária, Alencar tem denunciado o movimento como nada menos do que “criminoso.”

O PL tem exigido que o provável governo de Lula mantenha o atual presidente do Banco Central, Armínio Fraga, anterior consultor do bilionário investidor George Soros, o qual é identificado com uma política de taxas de juros astronômicas que tem atolado o país em recessão nos últimos quatro anos.

A estranha aliança entre o ex-líder sindical e o milionário direitista desencadeou protestos de intelectuais esquerdistas e militantes operários seguidores do PT, como também tem sido alvo de motejos de opositores do partido. Paulo Maluf, típico corrupto da política brasileira desde que foi nomeado para o cargo de prefeito de São Paulo pela ditadura militar há mais de 30 anos, afirmou que a escolha de Alencar demonstrava que o Lula queria pôr um fim a qualquer associação entre o PT e políticas esquerdistas.

Maluf afirmou que se impressionara com a profundidade das colocações reacionárias de Alencar após assistir a sua entrevista num programa radiofônico. “Senti-me um comunista!,” disse. “Ele é para mim de extrema direita.”

Analistas da economia brasileira pouco confiam que a aceitação pressurosa de enfoques direitistas pelo PT tenha qualquer impacto maior no mercado. A crise econômica do País continua a aprofundar-se, a despeito das medidas emergenciais anunciadas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso na última semana, incluindo o saque de 10 bilhões de dólares por conta de créditos do FMI para defesa do Real. A moeda brasileira continua a cair em relação ao dólar, atingindo baixas recordes. E a agência Moody de Wall Street, para avaliação de confiabilidade, rebaixou a classificação dos títulos brasileiros de “estável” para “negativo,“ classificando-os como os investimentos mais arriscados do mundo depois dos similares da Argentina e da Nigéria.

Não obstante os investidores se tenham referido aos temores de o PT assumir o poder, a crise econômica nacional tem raízes muito mais profundas, fincadas na dívida pública e superando os 250 milhões de dólares, desta forma ultrapassando 70% da produção do País. Com a queda do Real relativamente ao dólar e a necessidade de sempre oferecer taxas de juros cada vez mais altas para a venda dos títulos governamentais, o Brasil está preso a uma espiral viciosa, pois os juros já atingem um patamar de 18,5%, a estrangular as atividades econômicas.

Ousados rumores de que o Brasil é imune a “contágios” do colapso econômico da vizinha Argentina têm dado lugar a preocupações reais de que a maior economia latino-americana venha também a enfrentar um declínio catastrófico.

“Quem quer que esteja afirmando que Brasil escapara ileso do fragoroso tombo econômico argentino está revendo sua posição”, escreveu Celso Pinto, editor-chefe do diário de negócios Valor. “Toda atenção está agora voltada para o Brasil, para as eleições presidenciais e para a dívida interna” Clovis Rossi, comentarista principal do influente diário Folha de São Paulo, chamou a dívida de “bomba-relógio... pronta para explodir no regaço do próximo governo.” Esse governo, advertiu ele, “podia ser engolfado por enorme crise.”

Se isso acontecer, e Lula for eleito em outubro, o antigo dirigente sindical metalúrgico se encontrará à frente de um regime sobrecarregado pela burguesia brasileira e pelo FMI com a imposição de medidas de austeridade e repressão de convulsões sociais.

Obs. matéria divulgada pelo World Socialist Web Site (www.wsws.org) em 22.6.2002. Tradução de Odon Porto de Almeida.