Expondo os “retoques” de Stalin

Por Stefan Steinberg
8 Novembro 2006

Traduzimos aqui ao português matéria publicada originalmente em inglês no dia em 29 de dezembro, 1998. A matéria continua sendo de grande interesse, pois, trata a respeito de exposição sobre as falsificações históricas e artísticas da era stalinista, fatos que muitos socialistas das novas gerações ainda desconhecem.

“O comissário desaparece”: a falsificação de fotografias e da arte na Rússia estalinista, uma exposição baseada em documentos da coleção de David King — Berlim, Haus am Waldsee, Argentinische Allee 30.

Dando prosseguimento a montagens bem sucedidas em Viena e Milão, a extraordinária exposição de David King sobre as falsificações fotográficas de Stalin está em cartaz na Haus am Waldsee, em Berlim, até 7 de fevereiro. A exposição “O comissário desaparece” conta com boa parte do material original no qual King baseou seu livro homônimo (Metropolitan Books, Henry Holt and Company, Nova York, 1997). Na introdução ao seu livro, o autor escreve: “Nos tempos de Stalin havia tanta manipulação de material pictórico que é possível reconstruir a história da União Soviética na base de fotografias retocadas.”

A política da Revolução de Outubro e dos primeiros anos do estado soviético foi nitidamente oposta às políticas da burocracia de Stalin. Na medida em que essa burocracia chegou ao poder como uma casta parasitária baseada nas relações de propriedade estabelecidas por Outubro, era necessário para Stalin liquidar seus oponentes dentro do partido bolchevique. A exposição de King revela e registra acima de tudo a crueldade e a brutalidade com as quais a burocracia emergente assegurou seu poder. Não bastava que as vítimas de Stalin fossem fisicamente eliminadas da face da terra; era preciso também apagá-las da história e da memória completamente.

Uma das primeiras coisas que se vê ao entrar na exposição é uma série de quatro retratos. A primeira foto mostra Stalin no meio de um grupo de três lideranças do Partido Comunista (Antipov, Kirov e Schwernik) em 1926. Para a história pictórica da URSS impressa em 1940, Antipov não devia mais ser visto. Nove anos depois, numa biografia pictórica de Stalin, Schwernik também desaparece. A última na série das quatro é uma pintura de Stalin baseada na foto original, mas agora Stalin está sozinho.

A crueza com a qual vários “retoques” foram feitos dá a impressão de que os responsáveis procuravam intimidar e horrorizar o observador durante os anos do terror. Em algumas das imagens rostos foram simplesmente cortados fora ou colados por cima de outros. Em outras fotos, grandes grupos de pessoas foram cortados para mostrar uma ou duas pessoas que estavam atrás (veja a seguir entrevista com David King, que fala sobre a foto de Lenin/Gorky). Nas fotos e retratos, as espinhas de Stalin sumiam; ao invés disso o ditador era mostrado em cores pastéis quentes, junto aos seus escudeiros da polícia secreta, rodeados por crianças e balões multicoloridos.

Naturalmente, na nova ordem de Stalin não havia lugar para Trotski, o inimigo número um da burocracia, que junto com Lênin desempenhou o papel principal na Revolução de Outubro. Isto se aplica não só às fotos e imagens que apresentavam Trotski na vida pública. Até fotos casuais passaram pela tesoura da polícia de Stalin. A exposição inclui uma foto de Trotski e sua esposa no banco de trás de um carro durante a convalescença de Lênin na Geórgia, no inverno de 1924. Numa reprodução da foto, de 1936, Trotski e sua mulher foram substituídos por uma figura sobreposta grosseiramente.

Fotos autênticas da época da revolução e dos líderes bolcheviques eram extremamente difíceis de encontrar depois que o terror de Stalin começara. Isto acontecia não só por causa do enorme aparato voltado para a falsificação, sob as ordens de Stalin. A ameaça de represália fazia muitos colecionadores e artistas se autocensurarem. Como King escreve na introdução de seu livro, nos anos 30 aqueles que se encontravam em posse de uma imagem ou reprodução de Trotski poderiam esperar detenção imediata, prisão e provável execução.

Um dos que preferiram manter seus materiais “suspeitos” escondidos foi o célebre artista soviético Aleksandr Rodchenko. No final dos anos 80, King encontrou um tesouro de materiais no sótão do pintor há muito falecido. Entre os materiais que ele encontrou estava a foto do livro “Dez anos no Uzbequistão”. No livro, as faces dos funcionários locais do partido executados por Stalin em 1937 foram simplesmente pintadas de preto. O resultado é uma espécie de tributo repulsivo e não-intencional às vitimas mortas.

Finalmente, numa sala da Haus am Waldsee, King abandona os retoques. Ele preenche as quatro paredes da sala com fotos para registro policial de um pequeno número das centenas de milhares de vítimas anônimas e inocentes do terror stalinista. Qualquer pessoa que esteja verdadeiramente interessada em compreender o stalinismo e suas repercussões para o século 20 deve ver essa exposição.

Nota

O trabalho de King indica que a falsificação deliberada da história soviética não acabou com Stalin. Depois da morte do ditador em 1953, e do discurso secreto de Kruschev em 1956 descrevendo os crimes de Stalin, os falsificadores no Kremlin receberam novas ordens: a remoção seletiva de Stalin de um grande número de fotos e publicações - mostrando que, nesse caso, quem com ferro feriu com ferro também foi ferido.

Livro de David King em inglês: The commissar vanishes: the falsification of photographs and art in Stalin's Russia. Metropolitan Books, Henry Holt and Company, Nova York, 1997.

Em Alemão: Stalin's Retuschen, Foto- und Kunstmanipulation in der Sowjetunion. Hamburger Edition, 1997.

Entrevista com David King na abertura de sua exposição O comissário desaparece: a falsificação de fotografias e da arte na Rússia stalinista

“Stalin e seu regime destruíram a revolução”

29 de dezembro de 1998

Primeiramente, perguntei a David King sobre os fundamentos da exposição.

É preciso compreender que não há muito dinheiro por aí para montar uma exposição como essa. Ela levou algum tempo para sair do papel. Esta é a terceira mostra. A primeira foi em Viena, a segunda em Milão. E a coisa parece estar ganhando força. A exposição aqui em Berlim está bem montada e no geral estou bastante satisfeito com ela.

O que é legal nessa exposição é que ela é uma chance de ver materiais originais assim como reproduções de impressos. Por exemplo, tudo o que está nos armários de vidro é original e você tem a chance de ver de onde o material veio, e os jornais, revistas e documentos. A exposição se espalha por toda a casa, em todos os 10 cômodos, e até agora gerou bastante interesse da mídia.

Que tipo de reações a exposição provocou?

Bem, quase não houve nenhuma reação hostil. Ninguém pode argumentar contra o material que eu coletei. Baseado no que é exposto aqui, ninguém pode defender Stalin ou o estalinismo. Mas apesar disso houve um caso engraçado em Milão. Quatro visitantes da exposição se aproximaram de mim e me elogiaram por ter feito os retoques [risos]. Eles pensaram que fosse um tipo de intervenção artística — eu achei isso muito engraçado. Mas o interessante é que algumas vezes você tem uma reação semelhante também em Moscou, porque algumas imagens estão tão impressas na mente das pessoas, por exemplo — a imagem de Lênin e Gorki juntos. Há uma imagem muito estranha, muito longa e estreita, que traz Lênin e Gorki juntos, uma imagem que todo mundo já viu e conhece — mas nenhum negativo tem essa forma. Na verdade, a imagem foi recortada e retocada de uma foto tirada de um grupo de delegados do Segundo Congresso Mundial da Internacional Comunista. Quando as pessoas vêem a ampliação original inteira, que tem 25 pessoas, aí em Moscou sou recebido com expressões interrogatórias, as pessoas se perguntando — “será que é isso mesmo?”

Como e quando você começou seu trabalho?

Eu comecei a coletar material em 1970. Fui para a Rússia e procurei material sobre Trotski e não havia nada. Me perguntaram por que eu estava interessado em Trotski. Stalin é que foi importante para a revolução, não Trotski, eles me disseram. Quando eu voltei para Londres eu estava determinado a fazer uma história visual — tanto quanto possível, uma história visual, verdadeira, do que aconteceu na União Soviética. Eu tenho coletado material desde então e obviamente numa perspectiva socialista, ou seja, não como Richard Pipes e Robert Conquest [historiadores da guerra fria, anticomunistas]. E outra coisa — naquele tempo, no fim dos anos 60, uma grande quantidade de coisas estavam sendo escritas sobre política, incluindo as idéias de Trotski, mas as pessoas não estavam realmente lendo tudo aquilo. No entanto, quando meu parceiro de trabalho Francis [Wyndham] e eu fizemos a primeira biografia pictórica de Trotsky em 1972, 25.000 cópias foram vendidas. Você via pessoas lendo o livro no metrô, foi uma coisa grande na época, com uma edição capa-mole da Penguin, uma das maiores editoras britânicas. Nos pensávamos em comunicar algumas das idéias de Trotski e assim encorajar as pessoas a lerem mais sobre ele e dele.

Eu perguntei a King sua opinião sobre a relevância do seu trabalho frente à campanha atual, que acompanha a publicação do Livro negro do comunismo [Blackbook of Communism, vários autores], que iguala Lênin e as conquistas da revolução Russa com Stalin e o stalinismo.

Bom, naturalmente eu discordo de uma tese dessas. É muito difícil fazer as coisas que eu estou fazendo em uma época como a nossa, mas é claro que não há continuidade política entre Lênin e Stalin. Stalin e seu regime destruíram a revolução, ele destruiu as esperanças do comunismo. Você só precisa dar uma olhada nas imagens da sala 3 da exposição. Lá estão fotos da polícia secreta NKVD de pessoas comuns, cidadãos completamente inocentes que foram levados pelos capangas de Stalin — homens, mulheres e crianças, arrancados de suas casas e assassinados. Eles não chegaram nem a ir para o gulag.

Existem planos para montagens futuras, ou talvez para levar a exposição a Moscou?

No momento não. Só sei que com certeza haveria muitas dificuldades para levá-la a Moscou. Você sabia que eles querem restaurar o monumento de Felix Dzerzhinsky, que é o símbolo do poder do aparato da KGB? Ele costumava ficar bem de frente para a prisão Lubyanka em Moscou. A maioria dos deputados do partido comunista de Zyuganov votou pela restauração da estátua. É realmente assustador porque no caos da União Soviética, esses caras [a KGB] têm ficado quietos, escondidos, mas continuam lá. Agora eles dizem, “nossas mãos estão limpas, dêem-nos a chance de controlar as coisas.” Isso talvez demonstre que minha exposição não é somente um árido exercício histórico. Ela levanta e tenta esclarecer questões que são muito imporantes também para os dias de hoje.