A tragédia da Revolução Chinesa de 1925-1927

Por John Chan
6 Fevereiro 2009

Publicado originalmente em inglês no WSWS em 5 de janeiro de 2009.

Abaixo segue uma palestra realizada na escola de verão do Socialist Equality Party [SEP—Partido da Igualdade Socialista] em Ann Arbor, Michigan, em agosto de 2007.

A ascensão e queda da Segunda Revolução Chinesa de 1925-1927 foi um dos mais significativos eventos politicos na história do século XX. Essa revolução fracassada terminou com a morte de milhares de trabalhadores comunistas e a destruição total do Partido Comunista Chinês (PCC) como movimento de massas organizado da classe trabalhadora. Não se pode compreender os problemas fundamentais da história moderna chinesa—e em particular o da natureza do regime maoísta estabelecido em 1949—sem compreender as lições de 1925-27.

Em 1930, Trotsky fez o seguinte apelo: “Um estudo da revolução chinesa é assunto de enorme importância e urgência para todo comunista e trabalhador avançado. Não é possível falar seriamente sobre a luta internacinal do proletariado pelo poder sem o estudo, pela vanguarda proletária, dos eventos fundamentais, forças-motrizes e métodos estratégicos da revolução chinesa. Não é possível compreender o que é o dia sem compreender o que é a noite; não é possível compreender o que é o verão sem haver experimentado o inverno. Da mesma maneira, não é possível compreender o significado dos métodos do levante de outubro sem um estudo da catástrofe chinesa” (Leon Trotsky on China, Monad Press, Nova Iorque, 1978, p. 475).

A perspectiva da revolução chinesa estava no coração da luta de Trotsky contra a burocracia stalinista. Nesta luta, sua teoria da Revolução Permanente foi submetida a um gigantesco teste—pela segunda vez. Com o apoio do aparato burocrático soviético, Stalin prevaleceu, levando à traição de uma das mais promissoras oportunidades revolucionárias desde 1917. A derrota na China foi um golpe decisivo contra a Oposição de Esquerda. Ao final de 1927, Trotsky foi expulso do Partido Comunista da União Soviética e, em seguida, da URSS.

Esta palestra examinará e destacará o papel central da direção revolucionária, em direta oposição às análises da escola pós-soviética de falsificação. Os métodos e argumentos desenvolvidos por dois membros dessa tendência, os historiadores britânicos Ian Thatcher e Geoffrey Swain, já foram minuciosamente expostos e refutados por David North em seu trabalho recente, Leon Trotsky & the Post-Soviet School of Historical Falsification [Leon Trotsky & a Escola Pós-soviética de Falsificação Histórica] (Mehring Books, Detroit, 2007). As posições desses intelectuais quanto à revolução chinesa merecem nossa atenção.

De acordo com Thatcher—sobre os eventos de 1925-27—Stalin e Trotsky compartilhavam a mesma posição sobre a “necessidade de uma China socialista”. Trata-se da mistura de duas perspectivas diametralmente opostas. Trotsky representava a tendência internacionalista, que reconhecia que a primeira revolução socialista na Rússia atrasada não teve como principal fator condicionante as especificidades nacionais, mas sim as contradições mundiais do capitalismo. A Revolução de Outubro foi apenas o começo de uma revolução socialista mundial nos países capitalistas avançados, assim como nas colônias oprimidas. Trotsky sustentou que o proletariado chinês, assim como a classe trabalhadora russa, estava em posição de tomar o poder porque a burguesia nacional não era mais capaz, na época do imperialismo, de assumir um papel historicamente progressista.

Contrariamente, Stalin ignorou o fato de que as forças produtivas na época imperialista haviam superado os antiquados estados-nação. Ele pensava a opressão imperialista meramente como um obstáculo externo ao ascenso do capitalismo “nacional” chinês e que ainda seria possível seguir a via das revoluções burguesas clássicas da Europa Ocidental e América do Norte. Para permitir que a burguesia chinesa completasse suas tarefas nacional-democráticas, Stalin insistiu que a classe trabalhadora precisava primeiro subordinar-se ao regime burguês do Kuomintang (KMT). Assim, a perspectiva da revolução proletária era adiado por anos, ou até mesmo décadas.

Essas duas concepções opostas produziram políticas muito diferentes. Trotsky exigiu a independência política da classe trabalhadora; Stalin forçou os Comunistas Chineses a se tornarem serviçais do Kuomintang. Trotsky chamou a construção de Sovietes como organismos de poder dos trabalhadores e camponeses; Stalin considerou o próprio KMT um tipo de regime revolucionário democrático. Trotsky avisou os trabalhadores chineses sobre o perigo iminente de ambas as alas de direita e esquerda do KMT. Stalin primeiro capitulou para todo o KMT e, então, depois que Chiang Kai-shek massacrou os trabalhadores de Xangai em abril de 1927, ordenou aos Comunistas que se voltassem à liderança de “esquerda” do KMT, sob Wang Ching-wei, em Wuhan—apenas para vê-los liquidados em um banho de sangue três meses depois.

Após a revolução entrar em um periodo de declínio na segunda metade de 1927, Trotsky convocou uma retirada sistemática para proteger o partido; Stalin ordenou criminosamente que o PCC levasse adiante golpes, o que apenas levou à morte milhares de quadros e à destruição total das já despedaçadas organizações comunistas de trabalhadores nos principais centros populacionais.

Apesar dessas diferenças fundamentais, Thatcher argumenta que ela são completamente irrelevantes diante do trágico fim da Segunda Revolução Chinesa. Afirma ele que, mesmo que o Partido Comunista tivesse abandonado o Kuomintang em 1926, como defendia Trotsky, “não há evidência para sugerir que [o Partido Comunista] obteria maior sucesso em 1927” (Trotsky, Ian D. Thatcher, Routledge, 2003, p. 156).

Para Thatcher, programa revolucionário, perspectiva, direção e tática não têm qualquer influência sobre o desenrolar dos eventos decisivos na história humana.

As origens da Revolução Chinesa

Embora a primeira revolução socialista, a Revolução Russa, tenha ocorrido em outubro de 1917, sua preparação teórica dentro do movimento marxista levou décadas. Na China não houve um desenvolvimento prolongado como o ocorrido na Rússia. Assim como o surgimento da classe trabalhadora chinesa foi produto da direta importação de capital estrangeiro e equipamento industrial para um país semi-colonial atrasado, o desenvolvimento do movimento marxista chinês foi extensão direta da Revolução Russa, pulando por cima de séculos de pensamento social ocidental e de tradição social-democrata. A experiência da Revolução de Outubro foi fundamental para a China, por possuir características muito similares de desenvolvimento histórico e social. Ambos os países lutavam para subjugar o campo e possuíam questões democráticas não resolvidas, com um pequeno, mas rápido, desenvolvimento da classe trabalhadora.

A grande tragédia da revolução chinesa se deu porque a autoridade monumental da Revolução Russa foi utilizada, sob a liderança de Stalin, para defender uma política oportunista, baseada na teoria menchevique dos “dois estágios”.

Para um estudo mais detalhado das três concepções da Revolução Russa—a teoria dos “dois estágios”, a fórmula de Lenin da “ditadura democrática do proletariado e campesinato” e a teoria da Revolução Permanente de Trotsky—ver a palestra de David North ministrada em 2001, “Towards a reconsideration of Trotsky’s legacy and his place in the history of the 20th century” [Para uma reconsideração do legado de Trotsky e seu lugar na história do Séc. XX].

A teoria da Revolução Permanente, afirmada num sentido positivo pela Revolução Russa, também foi afirmada—embora em um sentido trágico e negativo—pelas derrotas sofridas na revolucão chinesa.

A principal questão sobre a revolução chinesa é muito similar à que havia emergido na Rússia. Diante das divisões criadas pelos senhores-guerreiros e potências imperialistas; das reformas agrárias para centenas de milhões de camponeses pobres, famintos por terra e por um fim às barbaridades da exploração semi-feudal, a China enfrentava a tarefa urgente da unificação nacional e da independência. Mas, a burguesia chinesa se provou ainda mais venal que sua contraparte russa—era dependente do imperialismo, incapaz de integrar a nação, organicamente amarrada aos latifundiários e usurários rurais e, assim, impossibilitada de levar adiante a reforma agrária. Acima de tudo, a burguesia chinesa temia profundamente a jovem e combativa classe trabalhadora do país.

Como na Rússia, a ascensão da indústria chinesa dependeu do capital internacional. Entre 1902 e 1914, o investimento estrangeiro na China dobrou. Nos 15 anos seguintes, o capital estrangeiro dobrou novamente, totalizando 3,3 bilhões de dólares e predominando nas principais indústrias chinesas, particularmente a têxtil, a ferroviária e a portuária. Em 1916, havia 1 milhão de trabalhadores industriais na China; em 1922, o número era duas vezes maior. Esses trabalhadores estavam concentrados em uns poucos centros industriais como Xangai e Wuhan. Dezenas de milhões de semi-proletários—artesãos, lojistas, escriturários e os pobres urbanos—compartilhavam aspirações sociais com a classe trabalhadora.

Apesar de fisicamente pequeno—alguns milhões em uma população de 400 milhões—o proletariado chinês era impulsionado pelas contradições mundiais do capitalismo a assumir um papel de vanguarda nas lutas revolucionárias do começo do século XX. O fracasso da primeira revolução chinesa em 1911, sob a liderança de Sun Yat-sen, demonstrou que a burguesia chinesa era absolutamente incapaz de completar suas próprias tarefas históricas.

Sun Yat-sen começou a ganhar apoio na década de 1890, depois que a dinastia Manchu rejeitou os apelos pelo estabelecimento de uma monarquia constitucional. Inspirado pelas revoluções burguesas clássicas da França e América, Sun advogou os “Três Princípios do Povo”—a derrubada do sistema imperial, a instituição de uma república democrática e a nacionalização da terra. Não fez, porém, qualquer tentativa de construir um movimento político de massas e de um modo geral se limitou a atividades conspiratórias: pequenos golpes armados ou ações terroristas contra oficiais dos Manchu.

A assim chamada “revolução” de 1911 significou um simplês peteleco, que derrubou uma estrutura amplamente apodrecida. Financeiramente, o governo imperial estava à beira da falência após décadas de pilhagem pelas potências estrangeiras. Politicamente, a corte dos Manchu estava completamente desacreditada após a anexação pelas potências imperialistas de territórios chineses na forma de colônias, como Hong Kong e Taiwan, ou na forma de “concessões” em cidades portuárias, onde tropas estrangeiras, polícia e sistema legal dominavam o poder político. Em 1900, a dinastia Manchu, moribunda, precisou confiar em tropas estrangeiras para pôr abaixo a Rebelião Boxer—um amplo levante anti-colonial pelos camponeses e pobres urbanos.

Quando a dinastia Manchu finalmente prometeu a reforma constitucional, já era tarde demais. Seções significativas da burguesia, burocracia e exército chineses haviam se voltado na direção de Sun Yat-sen. Em 10 de outubro de 1911, milhares de soldados em Wuchang, na província de Hubei, ensaiaram uma rebelião e proclamaram a república. A revolta rapidamente se espalhou por todas as províncias chinesas, mas a falta de qualquer movimento de massas genuíno deixou intactos os interesses velados. O resultado foi uma “República da China” levemente federada, com Sun ocupando o cargo de presidente provisório.

Essa nova república, porém, estava de fato nas mãos do velho aparato burocrático-militar, que se opunha a qualquer tentativa de dar terras ao campesinato. Sun rapidamente se comprometeu com essas forças reacionárias, querendo apenas reconhecimento internacional para a república chinesa. Mas as potências imperialistas exigiram que Sun entregasse a presidência ao último primeiro ministro da dinastia Manchu, Yuan Shikai, considerado pelas grandes potências um governante mais confiável—alguém com quem se podia contar para manter a China no estado de país semi-colonial. Depois que Yuan se tornou presidente, deu as costas a Sun e seu KMT, ou partido Nacionalista, jogou fora a constituição e dissolveu o parlamento. Em 1915, com o apoio do Japão, Yuan se autoproclamou imperador. Sua curta tentativa de restaurar o sistema imperial apenas terminou com revoltas dirigidas por generais do sul da China que apoiavam a república. Yuan foi forçado a renunciar e morreu pouco tempo depois.

Embora a república chinesa ainda existisse nominalmente, foi fragmentada por senhores-guerreiros rivais, cada um apoiado por diferentes potências imperialistas. O KMT sobreviveu no sul da China, em Guangzhou (Cantão), com o suporte de generais locais. Sun apelou aos senhores guerreiros menores, pedindo que desafiassem os maiores e unificassem o país, mas ninguém respondeu a seu chamado.

O Movimento de 4 de Março e a Revolução Russa

O fracasso de 1911 impactou profundamente certas camadas da intelectualidade chinesa. Chen Duxiu, fundador do Partido Comunista e do movimento trotskista chinês, foi pioneiro na busca por novos horizontes intelectuais. Essa foi uma era extraordinária, que viu a rápida politização de muitos jovens, que começaram a participar ativamente em lutas ideológicas, culturais e políticas de enorme amplitude, impulsionadas pela ambição de mudar o curso da história. A revista de Chen, a Nova Juventude, mais tarde se tornou o órgão oficial do Partido Comunista. Chen atraiu um grande número de estudantes, que o viam como um guerreiro incorruptível contra a influência reacionária do confucianismo. Assumiu a iniciativa radical de introduzir a literatura e a filosofia ocidentais a esses jovens chineses.

Os motores políticos decisivos vieram dos acontecimentos internacionais. A deflagração da Primeira Guerra Mundial em 1914, apesar de ter se dado principalmente na Europa, teve um grande impacto sobre a China, assim como a vitória da Revolução Russa em 1917, com suas implicações monumentais. Li Dazhao, co-fundador do PCC, foi o primeiro a introduzir o marxismo na China. Um dos primeiros ensaios marxistas da China foi seu “The Victory of Bolshevism” [A Vitória do Bolchevismo], escrito em 1918 e largamente inspirado na obra de Trotsky, A Guerra e a Internacional.

Li argumentou que a Primeira Guerra Mundial marcou o início da “luta de classes... Entre as massas proletárias do mundo e os capitalistas do mundo”.A revolução bolchevique era apenas o primeiro passo na “destruição das fronteiras nacionais atualmente existentes, que são barreiras ao socialismo, e da destruição do sistema de produção capitalista de monopólio e lucro”. Li saudou a revolução de outubro como “a nova maré do século XX”, o que logo foi confirmado pelos eventos na China. (Li Ta-chao and the Origins of Chinese Marxism, Maurice Meisner, Harvard University Press, 1967, p. 68)

Sob pressão das potências aliadas, a China declarou guerra contra a Alemanha e, formalmente, foi parte do campo vitorioso. Mas, na barganha da Conferência de Versalhes em maio de 1919, as potências imperialistas novamente pisaram na soberania chinesa, entregando ao Japão as concessões coloniais alemãs em Shandong.

As ilusões populares na “democracia” anglo-americana foram absolutamente despedaçadas. Houve um reconhecimento geral entre estudantes e trabalhadores de que os campos rivais na Primeira Guerra lutaram pela dominação global e pelos interesses de suas próprias classes capitalistas. Independentemente de quem ganhasse, a exploração imperialista da China e outros países coloniais não cessaria. A vitória da classe trabalhadora russa, por outro lado, abria uma nova perspectiva para as massas chinesas.

A fundação do PCC em julho de 1921, sob a liderança de Chen Duxiu e Li Dazhao, foi baseada no socialismo internacionalista. Apesar de seus números pequenos, o PCC obteve forças de seu programa e do prestígio da Revolução de Outubro, crescendo rapidamente. O PCC prontamente abraçou as táticas elaboradas pelo Segundo e Terceiro congressos da nova Internacional Comunista, ou Comintern, no sentido de lutar pela direção dos movimentos de liberação nacional que emergiam.

No Segundo Congresso, Lenin conclamou os jovens partidos comunistas dos países coloniais à participação ativa nos movimentos nacionais de liberação que surgiam, mas levantou especificamente a “necessidade da luta determinada contra a tentativa de pintar as modas democrático-burguesas de liberação em cores comunistas; a Internacional Comunista precisa apoiar os movimentos democrático-burgueses nacionais em países coloniais e atrasados somente com a condição de que, em todos os países atrasados, os elementos dos futuros partidos proletários, partidos comunistas não apenas em nome, sejam agrupados entre si e educados na apreciação de suas tarefas especiais, ou seja, lutar contra os movimentos democrático-burgueses dentro de suas próprias nações; a Internacional Comunista precisa entrar em uma aliança temporária com a democracia burguesa em países coloniais e atrasados, mas não pode se fundir com ela e precisa sob todas as circunstâncias assegurar a independência do movimento proletário mesmo em sua forma mais rudimentar... (Lenin On the National and Colonial Questions: Three Articles, Foreign Language Press, Pequim, 1975, p. 27).

Com a derrocada da revolução alemã em 1923 e a morte de Lenin em 1924, o eixo político essencial delimitado por Lenin foi abandonado. Em nome da oposição ao “trotskismo”, uma seção conservadora da liderança bolchevique encabeçada por Stalin rejeitou as lições básicas de 1917. Em vez de encorajar uma ruptura revolucionária na China, essa direção procurou estabelecer relações com a chamada facção “democrática” da burguesia chinesa, para reverter a pressão do imperialismo britânico e japonês no extremo leste.

Juntando-se ao Kuomintang (KMT)

De início, a política do PCC de formação de uma aliança temporária com o Kuomintang foi baseada na manutenção da independência dos dois partidos, cada um com sua própria organização. Mas, em agosto de 1922, a liderança do Comintern ordenou que os membros do PCC se juntassem, individualmente, ao KMT.

O PCC foi contra tal decisão, mas suas objeções foram suprimidas pela liderança do Comintern sob Zinoviev. Zinoviev justificou a decisão na base de que o liberal-democrático KMT era o “único grupo nacional-revolucionário sério” da China. O movimento independente da classe trabalhadora ainda era fraco, logo, o pequeno PCC deveria entrar no KMT para expandir sua influência.

Muitos anos depois, em novembro de 1937, Trotsky escreveu a Harold Isaacs: “A entrada em si em 1922 não foi um crime, e possivelmente nem mesmo um erro, especialmente no sul, assumindo que o Kuomintang nessa época possuía um número de trabalhadores e o jovem partido Comunista era fraco e composto quase totalmente de intelectuais... Nesse caso, a entrada teria sido um passo episódico na direção de um partido independente, passo análogo à sua entrada no Partido Socialista. A questão é: qual era a finalidade deles ao entrar e qual foi a política subseqüente?” (The Bolsheviks and the Chinese Revolution 1919-1927, Alexander Pantrov, Curzon Press 2000, p. 106).

Enquanto Stalin assumia o controle do Comintern, defendia a entrada do PCC no KMT cada vez mais não como um passo na construção de um partido de massas independente, mas como uma política de longo-prazo, com o objetivo de assegurar uma revolução democrático-burguesa na China. Aos olhos de Stalin, a significância do KMT superava largamente aquela da seção chinesa do Comintern. Em 1917, tal ponto de vista teria sido denunciado pelos bolcheviques como uma capitulação política em favor da burguesia. Mas, agora, Stalin estava impondo sua política sobre a China, afirmando que representava a continuidade do leninismo e a herança da Revolução de Outubro.

Após o Terceiro Congresso do Comintern, o PCC formalmente convocou todos os membros do partido a juntarem-se ao KMT e praticamente abandonou sua própria atividade independente. Quando o Comintern despachou Mikhail Borodin como seu novo delegado para a China, este agiu como um conselheiro para o KMT, que foi reestruturado de cima à baixo segundo linhas organizacionais “bolcheviques”. Dez membros líderes do PCC foram colocados no Comitê Executivo Central do KMT, cerca de um quarto do total. Os quadros comunistas frequentemente assumiam aspectos do trabalho do KMT.

O aparato militar do KMT foi produto direto da política do Comintern. Até estabelecer seu “Exército Revolucionário Nacional” em 1924, Sun Yat-sen possuía apenas 150-200 guardas leais—em comparação aos 200.000-300.000 soldados controlados por cada um dos senhores guerreiros no norte. A dependência de Sun quanto aos generais do sul se tornou óbvia em 1922, quando foi forçado a fugir para Xangai após uma tentativa de golpe local. Só então, Sun pediu ajuda à Moscou.

A Academia Militar de Whampoa, em Guangzhou—a base sobre a qual Chiang Kai-shek mais tarde subiu ao poder—foi estabelecida com a assistência de conselheiros soviéticos. Sem a ajuda militar soviética e a habilidade do PCC para mobilizar trabalhadores e camponeses, a construção de um exército do KMT, capaz de derrotar os poderosos senhores guerreiros, seria completamente impensável.

A explosão revolucionária

Um jovem membro do PCC [Partido Comunista Chinês], Peng Shuzi, que havia voltado de Moscou em 1924 e mais tarde se tornaria um líder no movimento trotskista chinês, demandava fortemente, junto a outros membros da ala esquerda do partido, uma política mais crítica em relação ao KMT. Ele se opôs diretamente à linha oficial de apoio à burguesia nacional que, unida por curtos laços aos senhores-guerreiros e potências imperialistas, era hostil à classe trabalhadora e incapaz de liderar a revolução nacional-democrática. Peng argumentava que o proletariado deveria tomar a liderança das lutas anti-coloniais.

Tal disputa polêmica teve um impacto significativo. O PCC reconduziu seu trabalho ao foco de liderar o crescente movimento de massas da classe trabalhadora, colocando em segundo plano suas atividades no KMT. Quando o PCC realizou seu Segundo Congresso Nacional do Trabalho no Primeiro de Maio de 1925, suas organizações representavam 570.000 trabalhadores. Sua influência crescente agitou uma onda de lutas da classe trabalhadora.

Durante a greve das fábricas de tecido controladas pelo Japão em Xangai, um trabalhador comunista foi assassinado a tiros, provocando manifestações anti-imperialistas pela cidade. Em 30 de maio, milhares de estudantes e trabalhadores protestaram em frente a uma delegacia de polícia em Xangai para exigir a liberação dos manifestantes que haviam sido presos. A polícia britânica abriu fogo, matando 12 pessoas e ferindo dezenas.

Aquele evento, que que ficou conhecido como o “Incidente de 30 de Maio”, desencadeou um levante sem precedentes da classe trabalhadora, marcando o início da Segunda Revolução Chinesa. Ocorreram cerca de 125 greves envolvendo 400.000 trabalhadores, além de protestos em massa e rebeliões por todo o país. Três semanas depois, em 23 de junho de 1925, quando trabalhadores e estudantes protestavam em Guangzhou (Cantão), a polícia anglo-francesa matou 52 pessoas a tiros. Quando souberam do massacre, trabalhadores de Hong Kong responderam com uma greve geral. Cem mil trabalhadores deixaram Hong Kong e foi declarado um boicote — sob a direção do Comitê de Greve Cantão-Hong Kong — às mercadorias britânicas.

Inicialmente, a luta anti-imperialista envolvia “todo o povo”; não apenas estudantes e trabalhadores, mas também capitalistas chineses. A burguesia chinesa, porém, logo chocou-se com o espírito de luta e o radicalismo da classe trabalhadora. Os empresários chineses em Xangai se retiraram rapidamente, passando à cooperação com as potências imperialistas, contra o movimento de greve.

Depois da morte de Sun Yat-sen, em março de 1925, a hostilidade da burguesia chinesa contra a classe trabalhadora se expressou claramente na ascensão política de Chiang Kai-shek. Filho de um comerciante rico, Chiang tinha ligações com banqueiros e comerciantes de Xangai. Diferente de Sun, Chiang Kai-shek não era um intelectual. Havia passado seus anos de juventude entre os gangsters, assassinos e ladrões de Xangai, que mais tarde se tornariam sua tropa de choque contra a classe trabalhadora da cidade.

A radicalização da classe trabalhadora forçou a direção do PCC a repensar suas relações com o KMT. Em outubro de 1925, Chen Duxiu novamente sugeriu que o PCC saísse do KMT e cooperasse apenas externamente, mas o Comintern rejeitou a proposta. A clique stalinista queria usar a morte de Sun para colocar líderes de “esquerda” ou pró-Moscou, como Wang Ching-wei , assim como Chiang Kai-shek na direção central do KMT.

A política menchevique de Stalin

Ninguém questionava que as tarefas imediatas da revolução chinesa eram “nacional-democráticas” ou burguesas em caráter. O problema era: que classe lideraria a revolução — a burguesia ou o proletariado — e em que direção — rumo a uma república democrática da burguesia ou a um Estado dos trabalhadores?

Depois do levante da classe trabalhadora em 1925, Stalin voltou-se à esquerda, mas baseou-se sistematicamente numa política claramente menchevique. Em oposição às lições de 1917 na Rússia, ele sustentou a ilusão de que o partido burguês KMT era um “partido dos trabalhadores e camponeses”, capaz de dirigir a luta revolucionária. E ainda foi adiante, argumentando que, em países como a China, a opressão imperialista unia todas as forças “progressistas” — a burguesia nacional, a intelligentsia pequeno-burguesa, o campesinato e a classe trabalhadora — num “bloco de quatro classes”.

Como os mencheviques russos, Stalin afirmava que a direção da “revolução anti-imperialista” pertencia naturalmente à burguesia nacional chinesa. A China era atrasada demais para construir o socialismo, defendia ele, de modo que a revolução proletária deveria ser adiada para o futuro indefinido — como um segundo estágio da revolução. No primeiro estágio, a tarefa dos comunistas chineses era empurrar o KMT para a esquerda, transformando-o numa “ditadura democrática do proletariado e campesinato”. Na prática, a perspectiva de Stalin implicava que os comunistas chineses eram responsáveis por ajudar o KMT a chegar ao poder e a suprimir a luta da classe trabalhadora pelo poder.

O próprio fato de que o KMT era compelido a aliar-se ao PCC refletia a fraqueza orgânica da burguesia. O oportunismo de Stalin permitiu que os líderes do KMT aparecessem às massas como “revolucionários” e “socialistas” — oportunidade que agarraram com as duas mãos. O Kuomintang foi formalmente incluído na Sexta Plenária do Comitê Executivo da Internacional Comunista de fevereiro-março de 1926. Stalin considerou-o seção “simpatizante” do Comintern, e pôs Chiang Kai-shek no presidium do Comintern, com o cargo de presidente “honorário”.

Os líderes do KMT apareciam como revolucionários precisamente por causa da força do apelo do PCC. Em 1920, o PCC consistia principalmente de um pequeno círculo de intelectuais; em 1927, o partido dirigiu um movimento de quase 3 milhões de trabalhadores da indústria, mineração e ferrovias — a vasta maioria do pequeno mas concentrado proletariado chinês. Em 1922, o PCC possuía apenas 130 membros. Cinco anos depois, o partido, incluindo seu movimento de juventude, a Liga da Juventude Comunista, contabilizava 100.000 membros. Em 1923, quando o PCC começou a construir associações camponesas, reunia somente 100.000 camponeses de Cantão; em junho de 1927, o número alcançava 13 milhões nas províncias de Hunan e Hubei. Além disso, dezenas de milhares de soldados eram simpáticos ao movimento revolucionário. Mas o partido manteve uma política conservadora que tinha como objetivo conter essas massas radicalizadas, para manter a aliança com a burguesia liberal.

A vinculação total do PCC ao KMT efetivada por Stalin deixou o partido totalmente vulnerável à inevitável virada do KMT contra o movimento revolucionário. Em 20 de março de 1926, Chiang repentinamente iniciou um golpe para aumentar seu domínio sobre o KMT. Não só passou por cima da chamada liderança de “esquerda” do KMT, como também prendeu 50 comunistas proeminentes e colocou todos os conselheiros soviéticos em prisão domiciliar. Desarmou o Comitê de Greve Cantão-Hong Kong e se estabeleceu, efetivamente, como ditador militar em Cantão.

Após uma reação inicial de choque e confusão, Stalin rapidamente decidiu manter a mesma política. Novamente se opôs a uma iniciativa do PCC de deixar o KMT. Nos jornais dos Soviets e do Comintern, todas as notícias sobre o golpe de Chiang foram encobertas ou desconsideradas como propaganda imperialista. Stalin aceitou as medidas hostis de Chiang, restringindo o número de membros do PCC em qualquer comitê do KMT a não mais que um terço da composição total.

Mesmo quando Chiang já demonstrava abertamente suas intenções contra-revolucionárias, Stalin apoiou com entusiasmo seu plano militar de lançamento da Expedição do Norte contra os senhores-guerreiros. Em nome da assistência aos esforços de guerra do KMT, a greve de 16 meses de Cantão-Hong Kong, que fez tremer o imperialismo britânico, foi encerrada. Qualquer luta independente por trabalhadores e camponeses foi banida.

Trotsky lançou um combate sistemático contra a política de Stalin para a China. Em setembro de 1926, Trotsky concluiu que o PCC deveria imediatamente deixar o KMT. “O movimento para a esquerda das massas de trabalhadores chineses,” disse ele, “é um fato tão certo quando o movimento para a direita da burguesia chinesa. À medida em que o Kuomintang baseou-se na união política e organizacional entre trabalhadores e burguesia, agora ele é despedaçado pelas tendências centrífugas da luta de classes. Não existem fórmulas políticas mágicas ou recursos táticos inteligentes para contrabalançar essas tendências, e nem poderia haver.

“A participação do PCC no Kuomintang foi perfeitamente correta no período em que era apenas uma sociedade de propaganda e se preparava para a futura atividade política independente e que, ao mesmo tempo, procurava tomar parte na luta de libertação nacional em andamento. Os últimos dois anos viram a ascensão de uma poderosa onda de greves entre os trabalhadores chineses... Este fato, por si só, confronta o PCC com a tarefa de desenvolver-se, saindo da classe preparatória em que se encontra e avançando para um patamar mais elevado. Sua tarefa política imediata precisa ser lutar pela liderança direta e independente da classe trabalhadora que despertou — não, é claro, para removê-la do quadro da luta nacional-revolucionária, mas para assegurá-la tanto o papel de combatente mais resoluta, quanto o de líder política hegemônica, no contexto da luta das massas chinesas” (Leon Trotsky on China, Monad Press, Nova Iorque, 1978, p. 114).

A análise de Trotsky foi confirmada pelos acontecimentos. Ao invés de desenvolver uma perspectiva proletária independente, o PCC devotou sua energia ao apoio da Expedição do Norte contra os senhores-guerreiros, convocando trabalhadores e camponeses a auxiliar o Exército Revolucionário Nacional. As massas forneciam informações de inteligência e estabeleciam unidades de guerrilha para cortar os fluxos de transporte e suprimento dos oponentes. Sem esse suporte popular e o excepcional heroísmo dos comandantes comunistas do exército, Chiang Kai-shek não teria alcançado o vale do Rio Yang-Tsé da maneira que o fez, em menos de quatro meses.

As tensões de classe, porém, estavam prontas para explodir, pois as vitórias militares do KMT sobre os senhores-guerreiros eram vistas pelas massas chinesas como o mero início da revolução. Quando as forças expedicionárias liberaram Hunan, por exemplo, quatro milhões de fazendeiros encheram as associações camponesas em apenas cinco meses e 500.000 trabalhadores entraram para a Associação Geral do Trabalho, liderada pelo PCC. EM Wuhan, um grande centro industrial no vale de Yang-Tsé, 300.000 trabalhadores formaram a Associação Geral de Hubei, sob a direção do PCC. Além disso, o movimento de massas se radicalizava rapidamente. Trabalhadores tomaram espontaneamente o controle das concessões britânicas em Hankou. O movimento camponês passou das exigências de aluguéis menores à luta armada com o objetivo de expulsar os latifundiários.

Abril de 1927: o golpe de Xangai

Conforme as massas se levantavam, Chiang Kai-shek caminhava rapidamente em direção ao campo da burguesia, grandes comerciantes e representantes do imperialismo no leste chinês, buscando suprimir a revolução. Moscou afirmava que o curso para a direita de Chiang podia ser contrabalançado pela reconstrução da “esquerda” em torno de Wang Ching-wei na liderança central do KMT, agora sediada em Wuhan. No entanto, as diferenças entre a esquerda e a direita do KMT eram puramente táticas. Ambas concordavam em estabelecer um governo “nacional” burguês. Sua diferenças eram, basicamente, sobre questões de estratégia militar, divisão do poder e, principalemente, a respeito de quando e como romper a aliança com o Partido Comunista.

Apesar das afirmativas vazias de Chiang a Stalin de que não estabeleceria a dominação burguesa na China, tal posição era cada vez mais inevitável, à medida em que os exércitos do KMT se aproximavam de Xangai — o centro econômico do país com uma grande e radicalizada classe trabalhadora.

O PCC procurou tomar o controle da cidade antes das tropas do KMT, mas a política de Stalin de evitar um conflito “prematuro” com Chiang Kai-shek e manter o “bloco de quatro classes” abalou e estrangulou essa iniciativa. Os trabalhadores de Xangai tomaram o poder apenas para presenteá-lo à burguesia e depois enfrentar a fúria das gangues assassinas de ladrões controladas por Chiang.

Sob a pressão das lutas de massas em ascenso, a direção do PCC lançou um chamado pela quebra da barreira entre as tarefas nacional-democráticas e a revolução socialista. O partido convocou a classe trabalhadora a alcançar a revolução socialista “imediatamente”, “concentrando as ferrovias, portos, minas e grandes indústrias sob o controle do estado e fazendo a transição em direção ao socialismo” (History of Sino-Soviet Relations 1917-1991, Shen Zhihua, Xinhua Press, p. 31).

Hostil a qualquer tentativa do PCC de violar sua teoria dos “dois estágios”, Stalin fez retroceder a iniciativa revolucionária na segunda metade de março de 1927, emitindo as seguintes ordens:

1. Nenhuma tomada de controle armada das concessões estrangeiras em Xangai, para evitar uma intervenção imperialista;

2. Manobrar entre as alas esquerda e direita do KMT, evitar o confronto com o exército e preservar as forças do PCC;

3. O PCC deve preparar-se para as lutas armadas, mas precisa esconder suas armas por hora, uma vez que a correlação de forças é desfavorável à classe trabalhadora.

Essas diretivas serviram para transformar o que era uma situação revolucionária excepcionalmente favorável num desastre mortal. Em 21 de março de 1927, o PCC organizou uma insurreição armada, apoiada por uma greve geral de 800.000 trabalhadores de Xangai. A classe trabalhadora esmagou as forças dos senhores-guerreiros e tomou o controle da cidade, mas não das concessões estrangeiras. O P,cc porém, foi impedido pela política de Stalin de estabelecer um governo dos trabalhadores, e formou em seu lugar um governo “provisório” que incluía representantes da burguesia. A principal tarefa dessa governo “provisório” não era levar adiante os interesses dos trabalhadores, mas dar as boas vindas a Chiang Kai-shek e suas tropas.

Chiang Kai-shek, deliberadamente, permaneceu fora de Xangai por semanas para que os trabalhadores se esgotassem nas batalhas contra os senhores guerreiros, enquanto planejava seu golpe em cooperação com a burguesia, gangsters de Xangai e as potências imperialistas. O complô de Chiang não era segredo para a direção do P,cc que concluiu que a classe trabalhadora de Xangai precisava se armar e voltar-se aos soldados simpáticos dentro dos Segundo e Sexto exércitos do KMT.

Em 31 de março, porém, o Comintern, alinhado com a prescrição de Stalin de evitar o conflito “prematuro”, enviou um telegrama a Xangai ordenando que o PCC instruísse milhares de trabalhadores a esconder suas armas. Um líder do P,cc Luo Yinong, denunciou raivosamente a ordem como uma “política de suicídio”. Ainda assim, o PCC foi compelido a obedecer.

Trotsky e a Oposição de Esquerda enfaticamente alertaram sobre os perigos e chamaram a construção de Soviets como os necessários órgãos independentes de poder das massas revolucionárias. Mas, em 5 de abril, num infame discurso para milhares de quadros do partido no Hall das Colunas em Moscou, Stalin insistiu que o PCC precisava manter seu bloco com Chiang.

“Chiang Kai-shek se submete à disciplina. O Kuomintang é um bloco, um tipo de parlamento revolucionário, com a Direita, a Esquerda, e os Comunistas. Por que fazer um golpe? Por que afastar a Direita quando temos a maioria e quando a Direita nos escuta? (...) No presente, precisamos da Direita. Ela tem pessoas capazes, que ainda dirigem o exército e o lideram contra os imperialistas. Chiang Kai-shek não tem talvez qualquer simpatia pela revolução mas ele está liderando o exército e não pode fazer outra coisa senão liderá-lo contra os imperialistas. Além disso, os da Direita têm relações com o General Chang Tso-lin [o senhor-guerreiro manchuriano] e compreendem muito bem como desmoralizá-los e induzi-los a passar para o lado da revolução, com mala e bagagem, sem dar um golpe. Também, eles têm conexões com os comerciantes ricos e podem levantar dinheiro a partir deles. Por isso, precisam ser utilizados até o fim, espremidos como um limão, e então jogados fora” (The Tragedy of the Chinese Revolution, Harold R. Isaacs, Stanford University Press, 1961, p. 162).

Em 12 de abril, apenas uma semana após o discurso de Stalin, Chiang deu um golpe, enviando gangues de ladrões para destruir a Associação Geral do Trabalho em Xangai. No dia seguinte, o PCC convocou uma greve de 100.000 trabalhadores, mas Chiang Kai-shek respondeu com tropas e metralhadoras, massacrando centenas. Durante o reinado do “terror branco” nos meses seguintes, milhares de trabalhadores comunistas foram assassinados não apenas em Xangai mas também em outras cidades sob o controle de Chiang.

A virada para a ala “esquerda” do KMT

Apesar das matanças brutais de Chiang, o PCC manteve consideráveis reservas em Wuhan, um grande centro industrial, assim como no movimento camponês de milhões ao longo do Yang-Tsé. Uma política correta poderia ter derrotado a contra-revolução de Chiang. Stalin, porém, não retirou qualquer conclusão das lições sangrentas de Xangai. Em seu “Questão da Revolução Chinesa”, publicado em 21 de abril de 1927, proclamou que sua política havia sido, e continuava a ser, a “única linha correta”. O massacre de Chiang, declarou ele, demonstrava apenas que a grande burguesia havia desertado a revolução.

A ala “de esquerda” do KMT ainda representava, segundo Stalin, a pequena-burguesia revolucionária, que lideraria a revolução agrária no “segundo estágio” da revolução. “Significa que, através de uma luta resoluta contra o militarismo e o imperialismo, o Kuomintang revolucionário em Wuhan se tornará de fato o órgão de uma ditadura revolucionária-democrática do proletariado e campesinato...” Ele insistiu então que o PCC deveria manter sua cooperação próxima com a “esquerda” do KMT, e se opôs às exigências de Trotsky e da Oposição de Esquerda pela construção de Soviets e pela independência política do PCC. (On the Opposition, J. V. Stalin, Foreign Language Press, Pequim, 1974, pp. 663-664)

Respondendo às testes de Stalin, Trotsky submeteu a teoria do “bloco de quatro classes” a uma crítica violenta. “É um erro grosseiro pensar que o imperialismo unifica mecanicamente todas as classes da China, externamente... A luta revolucionária contra o imperialismo não enfraquece, mas fortalece a diferenciação política das classes,” explicou. “Tudo o que subjuga as massas oprimidas e exploradas inevitavelmente empurra a burguesia nacional num bloco aberto com os imperialistas. A luta de classes entre a burguesia e as massas de trabalhadores e camponeses não é enfraquecida, mas, ao contrário, é aprofundada pela opressão imperialista, colocando a possiblidade da guerra civil em todo conflito sério” (Problems of the Chinese Revolution, Leon Trotsky, New Park Publications, Londres, 1969, p. 5)

Trotsky insistiu que a tarefa mais urgente era estabelecer a independência política do Partido Comunista em relação à “esquerda” do KMT. “Precisamente, sua falta de independência é a fonte de todos os males e de todos os enganos. As teses, em vez de acabarem de uma vez por todas com as práticas de ontem, propõe retê-las ‘mais do que nunca’. Mas isso significa que eles querem reter a dependência ideológica, política e organizacional do partido proletário em relação ao partido da pequena burguesia, que inevitavelmente é convertido em instrumento da grande burguesia” (ibid., p. 18).

Em 13 de maio de 1927, Stalin defendeu seu “bloco de quatro classes” perante os estudantes da universidade de Sun Yat-sen, baseada em Moscou, utilizando um método que só pode ser descrito como uma paródia do marxismo. “O Kuomintang não é um partido da pequena burguesia ‘comum’. Existem diferentes tipos de partidos da pequena burguesia. Os mencheviques e os socialistas revolucionários na Rússia também eram partidos da pequena burguesia; mas ao mesmo tempo eles eram partidos imperialistas, porque estavam numa aliança militante com os imperialistas franceses e britânicos... pode se dizer que o Kuomintang é um partido imperialista? Obviamente não. O Kuomintang é um partido anti-imperialista, do mesmo modo que a revolução na China é anti-imperialista. A diferença é fundamental” (On the Opposition, J. V. Stalin, Foreign Language Press, Pequim, 1974, p. 671).

A idéia absurda de que Chiang Kai-shek era um “anti-imperialista” porque a revolução chinesa era anti-imperialista foi refutada não apenas por Trotsky, mas pela própria história. A oposição do KMT a uma ou outra das grandes potências não constituía uma oposição ao imperialismo como tal. Os líderes do KMT estavam apenas manobrando entre as potências imperialistas, enquanto exibiam slogans “anti-imperialistas” para confundir as massas. Confrontado com a invasão japonesa das décadas de 1930 e 40, por exemplo, Chiang não hesitou em voltar-se em direção à Grã-Bretanha e aos Estados Unidos. O líder da “esquerda” do KMT, Wang Ching-wei, foi um passo além e se tornou o cabeça do regime-marionete do Japão. Deveria ser gravado na memória de todos que Chiang, que viveu seus últimos dias como o dirigente de uma desprezada ditadura anti-comunista em Taiwan, brindou certa vez à revolução socialista em Moscou, ao lado da direção stalinista.

A derrota em Wuhan

Enquanto Stalin saudava o “centro revolucionário” em Wuhan na Oitava Plenária do Comitê Executivo da Internacional Comunista, um número de comandantes da “esquerda” do KMT, violando a política oficial do partido, já estava em greve contra os comunistas, os sindicatos e as associações de camponeses. Em 17 de maio de 1927, logo antes da plenária, um dos mais sangrentos atos de repressão ocorreu em Changsha, mas nenhuma menção a isso foi feita no encontro. No lugar, Stalin denunciou as exigências da Oposição de Esquerda pela construção de Soviets como entraves à aliança continuada do PCC com a “esquerda” do KMT. “Será que a Oposição compreende que a criação de Soviets de delegados operários e camponeses agora é equivalente à criação de um governo duplo, compartilhado entre os Soviets e o governo de Hankow, e leva necessária e inevitavelmente à luta pela derrubada do governo de Hankow?”, defendeu Stálin (A Tragédia da Revolução Chinesa, Harold R. Isaacs, Universidade de Stanford, 1961, p. 241)

A resposta de Trotsky permaneceu não publicada por um ano. Com uma séria advertência sobre o que estava por vir, ele repudiou a política de Stalin e convocou o Comintern a fazer o mesmo. “Nós dizemos aos camponeses chineses: os líderes da Esquerda do Kuomintang da laia de Wang Ching-wei e Companhia irão inevitavelmente trai-los se vocês seguirem os dirigentes em Wuhan em vez de formar seus próprios Soviets independentes... Políticos da laia de Wang Ching-wei, sob condições difíceis, se unirão dez vezes com Chiang Kai-shek contra os trabalhadores e camponeses. Sob tais condições, dois Comunistas em um governo burguês se tornam reféns impotentes, senão uma máscara para a preparação de mais um golpe contra as massas trabalhadoras... A revolução burguesa democrática na China irá adiante e será vitoriosa na forma soviética, ou não será“ (Leon Trotsky on China, Monad Press, Nova Iorque, 1978, pp. 234-235, ênfase no original).

Novamente, os avisos de Trotsky se provaram corretos. Após o banho de sangue em Xangai, capitalistas e latifundiários na região de Wuhan perceberam rapidamente o regime de Chiang Kai-shek, buscando apoio. Eles resistiram às greves dos trabalhadores com o fechamento de fábricas e lojas. Organizaram deliberadamente saques de bancos e enviaram sua prata para Xangai. Em áreas rurais, mercantes e agiotas se recusavam a emprestar dinheiro aos camponeses, tornando-os incapazes de comprar sementes para os meses da primavera. As potências imperialistas se juntaram ao programa de sabotagem fechando suas firmas, enquanto especuladores levavam os preços a níveis insuportáveis. Os colapsos econômicos e o crescente movimento de massas aterrorizaram Wang Ching-wei, que demandou que os dois ministros comunistas em seu governo — o da agricultura e o do trabalho — usassem sua influência para aleviar as ações “excessivas” dos camponeses e trabalhadores.

A política oficial do PCC entrava em conflito direto com o movimento de massas. Em muitas áreas rurais, associações de camponeses haviam expulsado os latifundiários e funcionavam como autoridades locais. Em duas grandes cidades, Wuhan e Changsha, a inflação e falências haviam acertado os trabalhadores em cheio, compelindo-os a levantar demandas revolucionárias pelo controle de fábricas e lojas. A reivindicação de Trotsky pela construção de Soviets era muito coerente. Os Soviets não eram, como Stalin argumentava, simplesmente um meio para a direção da insurreição armada, mas veículos democraticamente eleitos através dos quais os trabalhadores, durante o ascenso revolucionário, poderiam começar a reorganização da vida social e econômica e defender seus interesses contra a contra-revolução.

Peng Shuzi explicou mais tarde que os sindicatos e organizações campesinas em Hunan e Hubei tinham uma contagem de membros na casa dos milhões. “Essa era uma grande força de massas organizada. Se o PCC tivesse seguido o conselho de Trotsky na época e confiado nessa grande massa organizada, ao mesmo tempo convocando a organização de soviets dos trabalhadores-camponeses-soldados para se tornarem a organização revolucionária central, e, através desses soviets armados levasse adiante a revolução agrária, dando terra aos camponeses e soldados revolucionários, eles não apenas poderiam ter aglutinado todas as massas pobres de Huan e Hupeh nos soviets, mas também poderiam ter destruído imediatamente as bases dos oficiais reacionários e desestabilizado indiretamente o exército de Chiang. Desse modo, a revolução poderia ter se desenvolvido da destruição das raízes do poder contra-revolucionário e avançado pela estrada da ditadura do proletariado“ (Leon Trotsky on China, Monad Press, Nova Iorque, 1978, p. 66, ênfase no original).

Apesar da glorificação estúpida que fazia da “esquerda” do KMT, Stalin também percebeu que sua política estava desmoronando. Em 1 de junho de 1927, emitiu uma ordem ao PCC para que criasse seu próprio exército com 20.000 comunistas e 50.000 trabalhadores e camponeses. Mas revoluções não são suscetíveis ao falatório burocrático. Como Trotsky apontou, as pré-condições para a construção de um exército revolucionário eram a consolidação da autoridade do partido sobre as massas e os meios concretos para cimentar a aliança entre a classe trabalhadora e o campesinato. Rejeitando a construção de Soviets, Stalin impediu que o PCC estabelecesse a base necessária para a criação de seu próprio exército.

Na medida em que se tornava mais óbia a traição iminente de Wang Ching-wei, o líder do PCC Chen Duxiu novamente exigia que o partido se retirasse do KMT. Mas, uma vez mais, o Comintern recusou sua proposição. No início de julho, Chen raivosamente renunciou ao cargo de secretário-geral do partido. Seu sucessor, Chu Quibai, imediatamente demonstrou sua lealdade a Stalin declarando, mesmo nesse momento de vida e morte, que o KMT “está naturalmente na posição de liderança da revolução nacional”.

No dia 15 de julho, Wang Ching-wei emitiu uma ordem formal exigindo que todos os comunistas se retirassem do KMT ou enfrentariam punições severas. Como Chiang, foi Wang que espremeu o PCC “como um limão” e então o jogou fora, iniciando outra onda, mais brutal ainda, de repressão aos comunistas e às massas insurgentes.

Segundo relatou um artigo de jornal contemporâneo: “Nos últimos três meses, a reação se espalhou do baixo Yang-Tsé até se tornar dominante em todo o território sob o assim chamado controle nacionalista. Tang Sheng-chih se provou mais eficaz como um comandante de esquadrões de execução do que de exércitos em batalha. Em Hunan seus generais subordinados levaram adiante uma limpeza contra os ‘Comunistas’ que Chiang Kai-shek mal pode igualar. Os métodos usuais de matar à bala e decapitar foram substituídos por métodos de tortura e mutilação que remetem aos horrores da Idade das Trevas e da Inquisição. Os resultados são impressionantes. As associações campesinas e trabalhistas de Hunan, provavelmente as mais eficientemente organizadas de todo o país, estão completamente esmagadas. Aqueles líderes que não foram queimados em óleo, e os que não foram enterrados vivos ou vagarosamente estrangulados por corda fina, fugiram do país ou estão em esconderijos tão secretos que não podem ser facilmente encontrados...” (The Tragey of the Chinese Revolution, Harold R. Isaacs, Stanford University Press, 1961, p. 272).

Mesmo assim, Stalin insistiu mais uma vez que suas políticas haviam sido corretas e pôs a culpa das derrotas sobre a liderança do P,cc particularmente Chen. Com as críticas da Oposição de Esquerda encontrando uma audiência cada vez maior na classe trabalhadora soviética, Stalin buscou salvar sua reputação mudando de posição repentinamente, saindo do oportunismo e caminhando ao seu exato oposto — o aventureirismo. Tendo sido responsável por duas gigantescas derrotas contra o PCC e as massas chinesas, Stalin ordenou que o partido em frangalhos levasse adiante uma série de insurreições armadas, que já estavam fadada ao fracasso. Em antecipação à sua teoria ultra-esquerdista do “Terceiro Período”, elaborada no início da década de 1930, Stalin atribuiu ao proletariado a tarefa imediata de tomar o poder, bem no ponto onde a revolução chinesa estava se retraindo. Como Trotsky explicou, na verdade, era necessário um reagrupamento do PCC e da classe trabalhadora, slogans democráticos defensivos e, acima de tudo, que se chegasse às lições necessárias — a tudo isso Stalin se opôs resolutamente.

A lição do “Soviet” de Cantão

O suspiro final da revolução chinesa — o levante de Cantão em dezembro de 1927 — foi nada menos que criminoso. Foi agendado para coincidir não com um movimento de massas em Cantão, mas com a abertura do XV Congresso do Partido Comunista Soviético. Seu principal propósito era melhorar a reputação da liderança stalinista e barrar as críticas da Oposição de Esquerda. Sem apoio nas massas, a tentativa de criar um governo soviético com milhares de quadros do partido não possuía qualquer possibilidade de ser vitoriosa. Cerca de 5.700 pessoas, muitas delas entre os melhores quadros revolucionários sobreviventes, foram mortas na heróica batalha para defender o “Soviet” de Cantão, que teve curta existência.

A teoria dos Soviets elaborada por Stalin foi finalmente posta à prova. Ao longo da revolução, Stalin havia argumentado que os soviets só deveriam ser criados no último momento, como os meios da organização da insurreição e, principalmente, não antes do estágio “democrático” ter sido completado. Mas, como Trotsky ainda insistia, os soviets eram, na realidade, os meios para trazer amplas camadas do povo trabalhador para a luta política. Eles não poderiam ser impostos de cima, mas emergiam da base do movimento revolucionário, incluindo os comitês de fábrica e de greve. Conforme a crise revolucionária se desenvolvia, os soviets evoluiriam em novos órgãos do poder operario.

Em Cantão, o PCC estabeleceu burocraticamente um organismo chamado “soviet”, como meio de executar uma insurreição na cidade. Mas a “tremenda resposta” antecipada por Stalin não se realizou, pois os trabalhadores e camponeses comuns sequer sabiam quem eram seus “delegados” nesse assim chamado soviet. Apenas uma minúscula minoria de trabalhadores apoiava o governo “Soviet” de Cantão”, que foi rapidamente despedaçado.

Stalin defendeu que as tarefas do levante de Cantão eram democrático-burguesas. Mas, como apontou Trotsky, mesmo nessa aventura falida, o proletariado foi compleido a tomar a dianteira. Durante sua vida limitada, o PCC foi forçado a tomar o poder sozinho e implementar medidas sociais radicais, incluindo a nacionalização das indústrias e bancos. Como Trotsky declarou, se essas medidas eram “burguesas”, então seria difícil imaginar o que seria uma revolução proletária na China. Em outras palavras, mesmo na insurreição de Cantão, a liderança do PCC foi compelida a seguir a lógica da Revolução Permanente, e não a grosseira teoria dos “dois estágios” de Stalin.

O fracasso do levante de Cantão marcou o fim da revolução nos centros urbanos. Os líderes do PCC que não se juntaram à Oposição de Esquerda, como Mao Zedong, fugiram para o campo. Pressionada pela burocracia stalinista a implementar a linha do Comintern do “Terceiro Período” e criar “Soviets”, uma nova corrente emergiu no PCC. Dirigida por Mao, essa tendência efetivamente rompeu com as raízes na classe trabalhadora e se baseou inteiramente no campesinato. Para continuar a “luta armada”, o PCC criou o “Exército Vermelho”, composto principalmente de camponeses, e estabeleceu “Soviets” nas zonas rurais isoladas. No início da década de 1930, o PCC havia praticamente abandonado seu trabalho dentro da classe trabalhadora urbana.

Mao, cuja perspectiva política possuía mais em comum com o populismo camponês do que com o marxismo, emergiu naturalmente como o novo líder dessa tendência. Antes de juntar-se ao Partido Comunista, havia sido profundamente influenciado por uma escola de socialismo utópico, a “Nova Vila”, que se inspirou nos Narodniks russos. A Nova Vila promovia o cultivo coletivo, o consumo comunal e o auxílio mútuo entre vilas autônomas como o caminho para o “socialismo”. Esse “socialismo rural” refletia, na verdade, não os interesses do proletariado revolucionário, mas a hostilidade do campesinato decadente diante da destruição do cultivo de pequena escala sob o capitalismo.

Mesmo após ter se juntado ao Partido Comunista, Mao não abandonou essa orientação em relação ao campesinato e esteve na ala direita do partido durante os levantes de 1925-1927. Mesmo no ápice do movimento de classe trabalhadora em 1927, Mao continuou a afirmar que o proletariado era um fator insignificante na revolução chinesa. “Se alocarmos dez pontos à realização da revolução democrática, então... Os que vivem nas cidades e as unidades militares representariam apenas três pontos, enquanto os sete pontos restantes seriam dos camponeses...” (Stalin’s Failure in China 1924-1927, Conrad Brandt, The Norton Library, Nova Iorque, 1966, p. 109).

As consequências da derrota

Logo após a derrota da revolução chinesa, Trotsky foi expulso do Partido Comunista, submetido a um exílio interno e, depois, expulso da URSS. Os registros de 1925-1927 na China deixam claro que Trotsky e a Oposição de Esquerda estavam bem cientes do que estava em jogo na Revolução Chinesa para a classe trabalhadora internacional. Trotsky estava engajado em uma luta política titânica para transformar a política do Comintern e criar as melhores condições para uma vitória revolucionária. Mostrar-se formalmente correto era o menos importante.

Em sua autobiografia, Minha Vida, escrita durante seu exílio em 1928, Trotsky recordou o que aconteceu na União Soviética depois de Chiang Kai-shek ter afogado em sangue os trabalhadores de Xangai. “Uma onda de excitação tomou conta do partido. A oposição levantou sua cabeça... Muitos camaradas mais jovens pensaram que a patente falência da política de Stalin inevitavelmente adiantaria o triunfo da oposição. Durante os primeiros dias do golpe por Chiang Kai-shek eu fui obrigado a jogar baldes de água fria sobre as cabeças quentes dos meus jovens amigos — alguns não tão jovens. Tentei mostrar a eles que a oposição não poderia ascender com base na derrota da revolução chinesa. O fato de que nossa previsão havia sido provada correta poderia atrair mil, cinco mil, ou mesmo dez mil novos apoiadores. Mas, para os milhões, o significativo não era nossa previsão, mas o fato do esmagamento do proletariado chinês. Após a derrota da revolução alemã em 1923, após a quebra da greve geral inglesa de 1926, o novo desastre na China iria apenas intensificar o desapontamento das massas sobre a revolução internacional. E foi esse mesmo desapontamento que serviu como a principal fonte psicológica para a política nacional-reformista de Stalin” (My Life: An Attempt at an Autobiography, Leon Trotsky, Penguin Books, 1979, pp. 552-553).

Embora Stalin tenha tentado isolar Trotsky do resto do Comintern e do P,cc seus esforços foram apenas parcialmente bem-sucedidos. Um grupo de estudantes chineses na União Soviética caiu na esfera de influência da Oposição de Esquerda e participou de seu protesto em 7 de novembro de 1927, na Praça Vermelha, em meio às celebrações do décimo aniversário da Revolução de Outubro. Ao final de 1928, ao menos 145 estudantes chineses haviam formado organizações trotskistas secretas em Moscou e Leningrado.

Ao mesmo tempo, durante o Sexto Congresso do Comintern, Trotsky escreveu sua famosa crítica ao programa do Comintern. Alguns delegados do P,cc incluindo Wang Fanxi, puderam ler os textos de Trotsky e aceitaram a análise da Oposição de Esquerda. Depois que alguns desses estudantes chineses retornaram à China em 1929, uma seção da liderança do P,cc incluindo Chen Duxiu e Peng Shuzi, voltou-se ao trotskismo e formou a Oposição de Esquerda chinesa.

Na China, o KMT, que havia estendido sua influência explorando os levantes revolucionários de massas, se provou absolutamente incapaz de manter a coesão no país ou de governar “democraticamente”. O “terror branco” do Kuomintang durou anos. De abril até dezembro de 1927, foram executados aproximadamente 38.000, e 32.000 foram presos como prisioneiros políticos. De janeiro até agosto de 1928, mais de 27.000 foram sentenciados à morte. Em 1930, o PCC estimou que 140.000 foram assassinados ou morreram em prisões. Em 1931, 38.000 foram executados como inimigos políticos. A Oposição de Esquerda chinesa não só foi caçada pela polícia do KMT, mas também entregue às autoridades pela liderança stalinista do PCC.

As consequências políticas da revolução fracassada se estenderam para muito além das fronteiras da China. Uma vitória teria enorme impacto em toda a Ásia e outros países coloniais. Entre outras coisas, teria dado grande ímpeto à classe trabalhadora japonesa em suas lutas contra o ascenso do militarismo japonês na década de 1930 e o mergulho rumo à guerra mundial.

Enquanto o capitalismo global mergulha mais uma vez em uma crise, enquanto se intensificam os impulsos de militarismo e da guerra, a classe trabalhadora chinesa e internacional somente podem se preparar para os levantes que começam a ser vislumbrados através da assimilação cuidadosa das lições políticas da derrota da Revolução Chinesa.