Bernie Sanders anuncia pré-candidatura à eleição presidencial de 2020

27 Fevereiro 2019

Publicado originalmente em 20 de Fevereiro de 2019

O senador Bernie Sanders fez o esperado anúncio na terça-feira na Rádio Pública de Vermont e em um vídeo postado no YouTube que ele tentará a candidatura à presidência na eleição de 2020 pelo Partido Democrata. Como isso, Sanders tornou-se o 10˚ candidato democrata a anunciar uma campanha ou lançar um comitê exploratório, com pelo menos 16 outros candidatos ativamente considerando concorrer à presidência.

Em 2016, Sanders atraiu amplo apoio de trabalhadores e da juventude com a promessa de lutar contra a desigualdade social. Um público massivo ouviu suas denúncias da desigualdade econômica e seu apelo por uma “revolução política” contra a “classe dos bilionários”. Para o choque e o horror do establishment do Partido Democrata e a surpresa do próprio candidato, Sanders obteve mais de 13 milhões de votos nas primárias do partido, conseguindo vencer Hillary Clinton nos estados do cinturão da ferrugem de Michigan, Indiana e Wisconsin.

À medida que o apoio popular a Sanders aumentava, e-mails publicados pelo WikiLeaks mostraram que a campanha de Clinton estava trabalhando com o Comitê Nacional Democrata para minar a campanha de Sanders e garantir que Clinton, amplamente odiada por trabalhadores e pela juventude por suas políticas pró-guerra e pró-negócios, seria a candidata do partido.

Apesar disso, Sanders acabou endossando Clinton na convenção do partido e instruiu seus partidários a votarem na candidata preferida de Wall Street e do establishment do complexo de inteligência-militar estadunidense. Este foi o resultado de sua “revolução política”.

Houve transformações significativas na vida social e política desde a primeira campanha eleitoral de Sanders. Nos últimos dois anos, houve um aumento da luta da classe trabalhadora nos Estados Unidos e ao redor do mundo, e o ano passado assistiu a maior quantidade de greves no país em 32 anos. Depois da onda de greves de professores de 2018, os professores do estado onde esse movimento começou, a Virginia Ocidental, entraram novamente em greve esta semana, e milhares de professores estão prestes a iniciar uma greve em Oakland, na Califórnia. Mais de 33.000 professores entraram em greve em Los Angeles no mês passado e 5.600 professores de Denver realizaram uma greve de três dias na semana passada. A oposição dos trabalhadores da indústria automotiva nos EUA e no Canadá ao fechamento de fábricas e à retirada de direitos está crescendo à medida que se aproximam as negociações dos novos contratos deste ano.

Dezenas de milhares de trabalhadores de empresas maquiladoras estão se rebelando contra seus sindicatos e entrando em greve no México, ao mesmo tempo que os protestos dos coletes amarelos contra o governo Macron continuam na França e grandes greves foram realizadas na Grã-Bretanha, Alemanha, Hungria, Índia, África do Sul e outros países.

A classe dominante teme que essa crescente onda da luta de classes assuma um programa e uma perspectiva socialista.

Esse é o significado do discurso fascista de Trump na segunda-feira, que aconteceu no mesmo tom de seu discurso do Estado da União, em 5 de Fevereiro. “A hora do crepúsculo do socialismo chegou em nosso hemisfério”, proclamou Trump em uma universidade da Flórida, poucos dias depois de declarar estado de emergência para mobilizar os militares para construir um muro ao longo da fronteira entre os EUA e o México, uma medida em desafio ao Congresso estadunidense. O ataque de Trump aos direitos democráticos e constitucionais fundamentais é uma declaração de guerra contra a classe trabalhadora e toda a oposição às medidas da elite corporativa e financeira.

Qualquer que seja o desejo de Trump, não é a “hora do crepúsculo” do socialismo, mas, sim, o contrário. As lutas das massas de trabalhadores e da juventude estão colocando-os em conflito direto com a classe dominante e o sistema capitalista.

Sanders não é o representante desse insurgente movimento da classe trabalhadora. Como o WSWS escreveu em fevereiro de 2016, quando as pesquisas estavam apontando um crescente apoio a Sanders nas etapas iniciais das primárias do Partido Democrata: “Ele é o beneficiário temporário de uma crescente onda de oposição popular que está em suas etapas iniciais.” O WSWS explicou que Sanders foi a resposta da própria classe dominante a esse movimento. Sua função era e continua sendo canalizar a oposição social atrás do Partido Democrata.”

O discurso inaugural de campanha de Sanders excluiu especialmente qualquer menção ao “capitalismo”, “socialismo”, “fascismo”, “imperialismo”, “internacionalismo”, “igualdade” ou à “classe trabalhadora”.

Ele declarou na terça-feira que sua campanha é “sobre transformar nosso país e criar um governo baseado nos princípios de justiça econômica, social, racial e ambiental”, mas ele não disse nada sobre como isso poderia ser alcançado através do Partido Democrata.

A fraude fundamental promovida por Sanders, juntamente com políticos como Alexandria Ocasio-Cortez, é que o Partido Democrata pode ser empurrado para a esquerda e se torne uma força de mudança progressiva. Articulando essa ficção política, o editor da revista Jacobin e principal membro dos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês), Bhaskar Sunkara, escreveu em uma coluna para o jornal The Guardian na terça-feira que “Sanders começou uma revolução em 2016. Em 2020, ele poderá terminá-la.”

A alegação de que Sanders está levando os democratas para a esquerda é desmentida pelos fatos. Nos últimos dois anos, os democratas concentraram sua oposição a Trump em questões de política externa imperialista, em particular com a exigência de uma ação militar mais agressiva no Oriente Médio e contra a Rússia. Eles serviram como porta-vozes de setores dominantes do aparato militar e de inteligência para exigir uma escalada da censura na internet sob o pretexto de combater as “fake news”. Longe de se opor a essa agenda de direita, Sanders lhe deu seu apoio.

Os democratas responderam aos ataques fascistas de Trump aos imigrantes fornecendo mais de um bilhão de dólares para a “segurança de fronteira”, enquanto apoiavam um aumento maciço no financiamento para os militares. Eles facilitaram os ataques do governo a programas sociais e a promulgação de trilhões de dólares em cortes de impostos para os ricos.

Os democratas promoveram implacavelmente a política de identidade, inclusive por meio da caça às bruxas da campanha #MeToo, que serve para dividir a classe trabalhadora, ao mesmo tempo que mina os direitos democráticos fundamentais, como o devido processo legal e a presunção de inocência. A mera associação de Sanders com a oposição à desigualdade econômica trouxe censuras de seu próprio partido, que pretende, como em 2016, fazer das políticas raciais, de gênero e sexuais a base de uma campanha de direita dirigida para mobilizar setores privilegiados da classe média alta atrás de Wall Street e dos militares.

Não foram poucas as experiências políticas com democratas “progressistas” e “pró-trabalhadores”, e elas sempre acabaram em desastre. O Partido Democrata é o cemitério de todos os movimentos sociais progressistas, e, agora, Sanders está mais uma vez tentando levar a classe trabalhadora e a juventude a um beco político sem saída.

O fim da desigualdade social e da ditadura dos ricos, e a oposição ao perigo da guerra, do fascismo e do autoritarismo, não serão alcançados por reparos superficiais de pequenas reformas que são impossíveis de serem alcançadas dentro da estrutura social capitalista, que é dominada de cima abaixo por uma oligarquia obscenamente rica e parasitária. Os interesses da classe trabalhadora só podem ser assegurados através de uma reorganização revolucionária e fundamental da vida social e econômica nos Estados Unidos e ao redor do mundo.

A igualdade social e a genuína democracia só podem ser estabelecidas através do socialismo. Isso requer a criação de órgãos de poder da classe trabalhadora, a expropriação dos ricos e a transformação das gigantes empresas em entidades controladas publicamente. A classe trabalhadora não pode conquistar nada sem um ataque frontal ao próprio sistema capitalista.

Niles Niemuth