A classe trabalhadora e a luta para libertar Julian Assange

28 Fevereiro 2019

Publicado originalmente em 23 de Fevereiro de 2019

Desde 19 de junho de 2012, o editor do WikiLeaks, Julian Assange, vive como prisioneiro dentro da pequena embaixada equatoriana em Londres, privado de luz solar direta, tratamento médico adequado e, no ano passado, até mesmo da capacidade de se comunicar com o mundo exterior.

Assange, um corajoso jornalista e editor, está sendo impiedosamente perseguido pelos EUA e seus lacaios globais porque ajudou a expor os crimes do imperialismo estadunidense e a criminalidade e corrupção da classe dominante em todo o mundo. Sua perseguição é a ponta de lança de uma ofensiva global contra a liberdade de expressão e pela censura das vozes de oposição na internet.

Assange foi forçado a procurar asilo político com o Equador depois que os tribunais britânicos confirmaram um mandado de extradição para a Suécia por acusações forjadas de que ele era “suspeito” de agressão sexual.

Assange e seus defensores avaliaram corretamente que, assim que ele fosse detido na Suécia, o Departamento de Justiça dos EUA emitiria seu próprio pedido de extradição para levá-lo aos Estados Unidos. Assange enfrentou, e ainda enfrenta, o perigo de ser julgado nos Estados Unidos por falsas acusações de espionagem.

Milhões de trabalhadores veem corretamente Assange como um defensor da liberdade de expressão. Organizações da pseudo-esquerda, como a Organização Socialista Internacional (ISO, na sigla em inglês), a revista Jacobin e a Socialist Alternative, no entanto, o abandonaram ou juntaram-se ao grupo de agências de inteligência e de propaganda imperialista que exige sua prisão e extradição.

Essas organizações se voltaram contra Assange como parte de sua guinada à direita e ao seu alinhamento com o imperialismo após a erupção dos movimentos revolucionários da classe trabalhadora na Tunísia e no Egito em 2011. A entrada na política da classe trabalhadora aterrorizou setores privilegiados da alta classe média, que se enriqueceu como resultado da destruição das condições de vida dos trabalhadores nas últimas quatro décadas.

Essa reação foi expressa de maneira mais clara em organizações que alegam falsamente ser socialistas. Essas organizações apoiaram a intervenção militar liderada pelos EUA para derrubar o regime líbio de Muammar Gaddafi em 2011, e depois organizações extremistas sunitas apoiadas pelos EUA, que provocaram uma guerra civil sectária na Síria contra o regime secular liderado por Bashar al-Assad.

A organização australiana Socialist Alternative (ligada ao Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores, que no Brasil é representado pela tendência do PSOL Liberdade, Socialismo e Revolução) criticou o apoio que tinha dado aos “rebeldes” islâmicos sírios apoiados pelos EUA como “anti-imperialismo irrefletido”.

Enquanto a pseudo-esquerda alinhava-se com as operações neocoloniais no Oriente Médio, ela também abraçava totalmente a mudança consciente da elite governante para dividir e desorientar a classe trabalhadora através da promoção das políticas de gênero e de identidade pelo Estado.

Por exemplo, a Socialist Alternative nos EUA declarou em dezembro de 2010 que as acusações contra Assange eram forjadas e “vergonhosas”. Em agosto de 2012, ela mudou completamente sua orientação, afirmando que as alegações “deveriam ser investigadas” e que “a caça que Assange sofre do imperialismo dos EUA não significa que ele seja inocente”.

As exigências que esses grupos fizeram para que o público acreditasse nas claras acusações forjadas contra Assange – e que foram arquivadas pela procuradoria sueca – assemelham-se ao movimento de direita #MeToo, que desrespeita princípios democráticos fundamentais, como a presunção de inocência e o direito ao devido processo legal.

Foi impossível para essas organizações, que se alinharam ao imperialismo e promoveram a política de identidade, continuar apoiando Julian Assange e o WikiLeaks – cuja própria existência é vista como uma ameaça pela classe dominante.

Uma coisa foi o WikiLeaks denunciar os crimes de guerra cometidos pelo odiado governo Bush no Afeganistão e no Iraque. Outra coisa bem diferente foi a mídia independente e crítica publicar informações que ajudaram a inspirar revoltas revolucionárias em massa que derrubaram governos e ameaçaram o próprio sistema de lucro capitalista.

Mas enquanto essas organizações de direita continuam sua cumplicidade silenciosa na perseguição a Assange, o apoio ao jornalista está crescendo entre os trabalhadores, a juventude e todos aqueles comprometidos com a defesa dos direitos democráticos.

O Partido Socialista pela Igualdade (SEP, na sigla em inglês) da Austrália está organizando manifestações em Sydney, em 3 de Março, e em Melbourne, em 10 de Março, para exigir a liberdade de Assange. Os comícios insistirão que o governo australiano acabe sua perseguição a de um de seus próprios cidadãos e intervenha imediatamente, usando todo o peso de seus poderes diplomáticos e legais, para obrigar que a Grã-Bretanha permita que Assange deixe a embaixada equatoriana e retorne à Austrália.

As manifestações do SEP têm tido importante apoio de indivíduos, publicações e organizações de princípios que defendem os direitos democráticos. Entre eles estão o cineasta John Pilger e o defensor dos direitos civis e professor Stuart Rees, que discursarão em Sydney no dia 3 de Março. Também se incluem na defesa de Assange o cantor e compositor Roger Waters, os jornalistas independentes Chris Hedges, Elizabeth Vos e Joe Lauria e o amplo movimento de defesa do WikiLeaks, que luta pela liberdade de seu fundador.

Em sua defesa de Assange, o Partido Socialista pela Igualdade insistiu, diante do ataque global contra a democracia pela elite dominante, que a classe trabalhadora é a poderosa força de massa para a defesa dos direitos democráticos.

Em todo o mundo, dos professores nos Estados Unidos aos trabalhadores de autopeças no México e do funcionalismo público na Índia, a classe trabalhadora está envolvida em uma onda de greves e lutas. À medida que esse movimento grevista aumenta, ele deve, e irá, levantar cada vez mais exigências políticas. Entre as mais importantes estarão a liberdade de expressão e o direito de conhecer a verdade. A luta para libertar Julian Assange é vital para a defesa dos direitos democráticos. Ela deve ser e será levada adiante pelas massas de trabalhadores em suas próximas batalhas.

James Cogan