Jeremy Corbyn e a chegada de Boris Johnson ao poder

2 Agosto 2019

Publicado originalmente em 30 de Julho de 2019

Diante da chegada de Boris Johnson à liderança do Partido Conservador e de sua posse como primeiro-ministro britânico, é comum os trabalhadores se perguntarem: “Como isso aconteceu?”.

Johnson lidera o governo mais conservador na história britânica, dedicado a uma saída “sem acordo” da União Europeia (UE) que impactará de maneira devastadora os empregos, salários e condições de trabalho. Ex-aluno da Eton College, uma escola britânica de elite, que não consegue esconder seu desprezo pelas “camadas inferiores”, Johnson é desprezado por milhões de trabalhadores. Ainda assim, ele agora ocupa o mais alto cargo político e espera-se que convoque eleições gerais antecipadas para garantir, com alguma chance, um mandato para deixar a União Europeia em 31 de outubro e então implementar sua agenda de cortes de impostos para as grandes corporações e os ricos.

O primeiro-ministro Boris Johnson chega à Downing Street [Crédito: Flicker – Number 10 Downing Street]

Jeremy Corbyn é politicamente responsável pela ascensão de Johnson e seu gabinete ministerial de ideólogos thatcheristas. Ele atuou como um intermediário na formação do governo Johnson ao suprimir todas as tentativas dos trabalhadores de realizar uma luta contra as grandes corporações e seus defensores políticos.

Os quatro anos de Corbyn como líder do Partido Trabalhista são uma experiência estratégica para a classe trabalhadora britânica e internacional. Eles confirmam o papel crucial da suposta “esquerda” em impedir qualquer desafio político à burocracia do Partido Trabalhista e sindical, que age para policiar a luta de classes em nome da classe dominante.

Corbyn foi eleito com folga como líder do Partido Trabalhista em setembro de 2015 com 59,5% dos votos no primeiro turno em uma reação política contra seus três oponentes blairistas e sua política de “leve austeridade” e militarismo imperialista. Quando os blairistas agiram para depô-lo com um voto de desconfiança de 172 deputados em junho de 2016, o resultado foi o contrário do planejado. Corbyn conseguiu 61,8% dos votos, 62 mil a mais do que em 2015. Centenas de milhares de trabalhadores e jovens filiaram-se ao Partido Trabalhista de maneira que, em 2017, os trabalhistas tinham mais de um milhão de membros e eram o maior partido da Europa.

Em 2017, a primeira-ministra Theresa May convocou eleições gerais antecipadas, calculando que ela conseguiria reunir apoio político ao prometer garantir um acordo favorável com a UE para o Brexit. Ao invés disso, o voto dos trabalhistas aumentou de 30%, em 2015, para 40% – o maior aumento nos votos trabalhistas desde Clement Atlee, em 1947. Os conservadores tiveram que formar um governo de minoria, que passou a depender do apoio dos 10 deputados do Partido Unionista Democrático.

Não poderia haver situação mais favorável para um líder do Partido Trabalhista lutar contra a direita blairista e então combater os conservadores. Corbyn liderava uma onda de esquerda anti-austeridade e anti-militarista que poderia tê-lo levado ao poder. Mas o objetivo central de Corbyn era desviar todas as tentativas de expulsar os blairistas enquanto ele adotava o programa principal deles. Corbyn permitiu um voto livre sobre a guerra na Síria, aceitou a participação como membro na OTAN e o sistema de mísseis nucleares, Trident, e insistiu que as autoridades na esfera local administradas pelos trabalhistas impusessem lealmente os cortes ditados pelos conservadores.

No auge de sua popularidade, Corbyn agiu para suprimir toda a oposição aos blairistas. Em 2018, ele se uniu com a burocracia sindical para se opor ao chamado para uma re-seleção obrigatória de deputados blairistas, enquanto o número dois dos trabalhistas, John McDonnell, organizou uma ofensiva de “chá e biscoitos” para ganhar o apoio do centro financeiro de Londres.

Quando a crise dos conservadores em torno do Brexit ameaçou a queda de May em abril deste ano, Corbyn prontificou-se a salvar seu governo. Ele abandonou o chamado por eleições gerais e começou a conversar com May para defender o “interesse nacional”. O golpe final contra May foi deixado para a fração pró-Brexit de seu próprio partido, que terminou com a chegada de Johnson ao poder, o segundo primeiro-ministro conservador não eleito desde 2016.

Johnson lidera um governo que continua profundamente dividido por causa do Brexit, formando uma maioria de apenas três deputados. Corbyn, entretanto, entregou a iniciativa política de seu próprio partido aos blairistas, que estão ocupados em uma caça às bruxas a membros trabalhistas de esquerda sob falsas alegações de antissemitismo e conspirando ativamente para tirar Corbyn da liderança do partido. Deputados trabalhistas “contaram privadamente” ao Sun que a chegada de Johnson ao poder “vai quase certamente ‘acelerar’ as tentativas de golpe para mudar o líder dos trabalhistas. Um deles disse: ‘Ter Boris lá será bom para nós porque vai acelerar o que tem que acontecer’”.

Os blairistas estão insistindo que os trabalhistas devem se comprometer com a permanência na UE. Sua perspectiva é a de um governo de união nacional com o Partido Liberal Democrata, o Partido Nacional Escocês e o Plaid Cymru, o Partido do País de Gales. Isso pode permitir que os conservadores vençam uma eleição antecipada no terceiro trimestre em aliança com o Partido Brexit de Nigel Farage, que está incitando uma campanha nacionalista centrada na traição da “elite de Westminster” ao resultado do referendo de 2016.

Apesar de a maioria dos simpatizantes trabalhistas terem votado para permanecer na UE, entre 26% e 34% deles votaram a favor do Brexit, em sua maior parte nos centros da classe trabalhadora no norte do país e que agora serão alvo do Partido Brexit nas eleições. A combinação de confusão e desorientação geradas por Corbyn foi expressa nas eleições europeias de 26 de maio, que fez o voto nos trabalhistas diminuir 15%, tendo perdido apoio em regiões que haviam votado pela permanência na EU para o Partido Liberal Democrata e para o partido xenofóbico de Farage em áreas que apoiam o Brexit.

Johnson poderia até mesmo deixar de convocar eleições se for verdadeira a alegação de Caroline Flint de que mais de 40 outros deputados trabalhistas que apoiam o Brexit apoiariam seu governo em uma votação parlamentar sobre a saída da UE. Sob a liderança de Corbyn está totalmente excluída a possibilidade de a classe trabalhadora intervir segundo seus próprios interesses na maior crise de governo enfrentada pelo imperialismo britânico desde a Segunda Guerra Mundial.

O papel de Corbyn não é um caso especial. Ele segue os passos políticos do Syriza na Grécia, que chegou ao poder em janeiro de 2015 e jurou combater a austeridade da UE para depois impor cortes ainda maiores do que os de seus antecessores de direita da Nova Democracia. Em todos os lugares, a “esquerda” oficial, seja Corbyn no Reino Unido ou Bernie Sanders nos EUA, trabalha para suprimir a luta de classes e entregar a vitória política para a direita – de maneira que agora o Reino Unido tem o seu equivalente político de Donald Trump ocupando o número 10 da Downing Street.

Tudo depende de a classe trabalhadora tirar as conclusões políticas necessárias.

O Partido Trabalhista é um partido de governo imperialista e não pode ser transformado pela pressão da base em um instrumento para se opor à austeridade, ao militarismo e à guerra. “Esquerdistas” como Corbyn são leais defensores da classe capitalista. Eles preferem expulsar seus próprios apoiadores do que se arriscarem a mobilizar um movimento da classe trabalhadora que pode sair de seu controle.

Nem as pálidas panaceias reformistas defendidas por Corbyn, a permanência na UE ou o Brexit conseguem solucionar a enorme crise social que a classe trabalhadora enfrenta. O conflito nos círculos dominantes em torno do Brexit é sobre aliar-se com os Estados Unidos ou a Alemanha e a França em uma guerra comercial cada vez maior que ameaça mergulhar o mundo inteiro em um conflito militar. A classe trabalhadora pagará por uma austeridade cada vez maior em nome da competitividade global e do crescimento da extrema direita.

Apenas um movimento unificado da classe trabalhadora britânica, europeia e internacional pelo socialismo oferece um caminho a seguir. Após décadas de supressão da luta de classes, o mundo está testemunhando a expressão inicial de uma rebelião política contra os descreditados partidos socialdemocratas e os sindicatos em uma onda de greves em vários países. Denunciar a alegação de Corbyn de que ele representa uma alternativa de esquerda abre o caminho para os trabalhadores do Reino Unido ocuparem seu lugar nesse movimento emergente sob a liderança do Partido Socialista pela Igualdade.

Chris Marsden