Depois das eleições turcas: Como a pseudo-esquerda se alinhou ao CHP

Parte I: Uma liquidação política dentro do establishment capitalista

Por Ulas Atesci e Alex Lantier
21 Outubro 2019

Publicado originalmente em 2 de outubro de 2019.

Esta é a primeira parte de uma série. Leia também aParte II e a Parte III da série.

As eleições municipais turcas de 31 de março e a nova eleição de 23 de junho em Istambul marcaram a integração de uma grande parte dos partidos da pseudo-esquerda de classe média ao establishment capitalista. Em meio à revolta cada vez maior dos trabalhadores contra a crescente desigualdade, pobreza, desemprego e ataques sociais sob o governo do islâmico Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) do presidente Recep Tayyip Erdogan, esses grupos apoiaram o kemalista Partido Republicano do Povo (CHP). Eles se reuniram em torno da “Aliança da Nação” liderada pelo CHP, o partido histórico do governo capitalista na Turquia, que foi apoiado pelo nacionalista curdo Partido Popular Democrático (HDP).

Essa virada foi liderada por algumas das maiores organizações no campo pequeno-burguês, incluindo o ex-castrista Partido Liberdade e Solidariedade (ÖDP) e o albanês-stalinista Partido Trabalhista (EMEP). Enquanto o líder do ÖDP, Alper Taş, concorreu pela legenda do CHP no distrito de Beyoğlu em Istambul, o EMEP apoiou candidatos do CHP nas três maiores cidades da Turquia – Istambul, Ankara e Izmir. Depois da decisão anti-democrática do AKP de forçar uma nova eleição em Istambul, eles se alinharam ao CHP e seu candidato à prefeitura, Ekrem İmamoğlu, os representantes favoritos de seções influentes da burguesia turca conectada ao imperialismo, incluindo a associação empresarial TÜSIAD.

Alguns meses após a nova eleição em Istambul, suas alegações corruptas de que o CHP e İmamoğlu são uma alternativa ao AKP e a Erdogan foram expostas. Como esperado, o CHP apoiou o AKP em questões chave de política externa e doméstica. O líder do CHP, Kemal Kılıçdaroğlu apoiou as preparações do AKP para uma nova invasão turca da Síria, dizendo que estava aberto a construir “um corredor de paz ou uma zona especial” no país. O próprio İmamoğlu, depois de assumir a prefeitura de Istambul pelo CHP, elogiou os planos reacionários do AKP para deportar em massa refugiados sírios de Istambul, considerando-os “um processo necessário para tirar de Istambul sírios ilegais”.

Um abismo de classe separa esses partidos do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) e o Sosyalist Eşitlik (Grupo Igualdade Socialista), a organização simpatizante ao CIQI na Turquia. Um ressurgimento internacional da luta de classes está acontecendo, que inclui protestos de massas para derrubar ditaduras na Argélia e no Sudão e ondas de greves em toda a América do Norte e Europa em meio à revolta cada vez maior contra a desigualdade social, a guerra imperialista e a repressão de estado-policial. O descrédito das ocupações e intervenções imperialistas de décadas no Afeganistão, Iraque e Síria levanta objetivamente a questão da construção de um movimento anti-guerra e anti-imperialista em massa na classe trabalhadora.

A resposta do ÖDP, EMEP e de toda a camada pequeno-burguesa que esses partidos representam anda em direção oposta. Conforme surgem as condições para uma mobilização revolucionária unindo a classe trabalhadora contra a guerra imperialista e o capitalismo em todo o Oriente Médio e o mundo, eles tentam bloquear a oposição à guerra, austeridade social e repressão de estado-policial. Seu apoio ao CHP reflete seu alinhamento à burguesia turca, e, através dela, ao imperialismo.

Uma liquidação política no campo do CHP

Depois das eleições de 23 de junho, o ÖDP comemorou em Istambul a vitória de İmamoğlu, um multimilionário conectado à associação empresarial TÜSIAD e ao império coorporativo Koç, o maior conglomerado industrial da Turquia. Em sua declaração intitulada “O povo venceu”, o ÖDP escreveu: “31 de março e 23 de junho também mostram que o fim para o regime político islâmico está chegando”. Prometendo combater “esse poder fascista que é uma praga para os trabalhadores”, ele concluiu: “Nós conseguimos juntos! Nós ganhamos juntos! Nós vamos reestabelecer a Turquia juntos!”.

O jornal do EMEP, Evrensel, comemorou o resultado, chamando-o de uma “humilhação pública” para Erdogan, escrevendo: “A unanimidade alcançada nas eleições precisa ser transformada em uma união permanente”. Ao mesmo tempo que a presidente do EMEP, Selma Gürkan, foi ao Twitter para parabenizar İmamoğlu pessoalmente, a presidente da província de Istambul do partido, Sema Barbaros, declarou: “As eleições de Istambul têm mais significado do que uma eleição local. O povo não apenas elegeu o prefeito de Istambul. Eles também deram uma importante lição para o burocratismo. ... O que é necessário é tornar essa parceria uma união duradoura”.

Ao longo da campanha eleitoral, esse meio pequeno-burguês insistiu que qualquer um com simpatias pela esquerda tinha o dever de apoiar a “Aliança da Nação” contra o AKP, o que supostamente fazia parte da luta “pela democracia” e “contra o fascismo”. Isso era claramente um absurdo. A “Aliança da Nação” incluía o Partido do Bem, uma fração que rompeu com o Partido de Ação Nacionalista (MHP) de extrema direita. Em 2016, o Partido do Bem rejeitou o apoio do MHP a Erdogan após o golpe apoiado pela OTAN e, por isso, rompeu com o MHP. De fato, uma estreita maioria dos eleitores rejeitou seus apelos em 31 de março, votando pelos candidatos da “Aliança do Povo” do AKP-MHP.

No entanto, isso não desencorajou os partidos pequeno-burgueses a apoiar o CHP. Depois de sua derrota em Beyoğlu em 31 de março, Taş disse: “Nós vamos continuar a trabalhar nas ruas de Beyoğlu como se tivéssemos ganhado. ... Nós ganhamos esta eleição politicamente. Toda a Turquia seguiu, invejou, afirmou, aplaudiu e se sentiu orgulhosa de nossa campanha. Nós todos fizemos isso juntos. Nós todos trabalhamos nisso. Nós vamos continuar esse trabalho, vocês terão a certeza de que não perderemos este trabalho”.

O pequeno Partido Socialista Revolucionário dos Trabalhadores (DSİP), a seção turca da Tendência Socialista Internacional – que considera que a URSS foi um regime capitalista de estado, não um estado operário degenerado – e partido irmão do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP, na sigla em inglês) no Reino Unido, apoiou İmamoğlu. “O objetivo principal desta corrida é garantir que os eleitores que não votaram no AKP em 31 de março não votem pelo AKP novamente! E ainda, se isso puder ser alcançado, garantir que os eleitores votem em İmamoğlu”, escreveu o DSİP em uma declaração sobre a nova eleição em Istambul, acrescentando: “Sem participar na frente de İmamoğlu, nós faremos uma campanha independente declarando: ‘Eles não foram justos com [İmamoğlu], então nós devemos dar a ele o que lhe é devido e votar nele’”.

A resposta do pablista Partido Revolucionário dos Trabalhadores (DİP) – a seção turca do Comitê Coordenador para a Refundação da Quarta Internacional (CRQI), que inclui o Partido Obrero (PO) argentino e o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (EEK) de Savas Michael-Matsas na Grécia – foi apenas superficialmente diferente. Ele se recusou a apoiar diretamente o CHP. Mas isso só esclareceu o seu apoio aos partidos burgueses, acima de tudo o CHP, convocando os parlamentares turcos a se unirem em uma Assembleia Constituinte para refazer as bases legais do estado capitalista.

Em sua declaração de 6 de maio sobre as novas eleições de Istambul, intitulada “Boicote! Retorne ao seio da nação! Por uma Assembleia Constituinte livre”, o DİP escreveu: “Todos os membros de oposição do parlamento devem renunciar e voltar ao seio da nação. ... Não deixem o AKP e o MHP oprimirem o povo! Boicote as novas eleições em Istambul, evacue o parlamento impotente!”.

Ao apelar à oposição burguesa para que aja, ao mesmo tempo que indica sua hostilidade à aliança AKP-MHP, o DİP deixou clara sua posição. Concordando com o meio pequeno-burguês mais amplo, ele alinhou-se à aliança liderada pelo CHP – apesar de o CHP ser cúmplice de todos os crimes da elite kemalista burguesa tradicional, incluindo consecutivos golpes militares e a violenta repressão ao povo curdo e à classe trabalhadora.

Continua.