A pandemia do coronavírus: um desastre global

13 Fevereiro 2020

Publicado originalmente em 11 de fevereiro de 2020

O número de casos confirmados do surto de coronavírus 2019-nCoV, que começou na cidade chinesa de Wuhan, agora ultrapassou os 43.000. O número de mortes é de pelo menos 1.013 e pelo menos 25 países possuem ao menos uma pessoa que sofre da doença causada pelo novo coronavírus. Dezenas de outros países estão monitorando pacientes com febre e sintomas semelhantes a pneumonia ou se preparando para possíveis infecções.

O surto agora excedeu o número de infectados e de fatalidades causados pela epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) em 2002-2003 e continua a se espalhar, apesar das quarentenas impostas pelos governos chinês e ao redor do mundo.

Estudantes fazem fila para higienizar as mãos para evitar contrair o novo coronavírus antes da aula da manhã em uma escola secundária em Phnom Penh, no Camboja, em 28 de janeiro de 2020. (AP Photo/Heng Sinith)

Cidades em toda a China, especialmente Wuhan, o epicentro do novo coronavírus, permanecem bloqueadas total ou parcialmente em um esforço do governo para conter a disseminação do vírus. Milhões de pessoas permanecem em casa, transformando muitos dos principais centros urbanos da China, incluindo Xangai, a cidade mais populosa do país, em verdadeiras “cidades fantasmas”. Aqueles que se aventuram sair de casa geralmente são parentes dos infectados, que procuram ajuda de hospitais lotados ou buscam alimentos e outras necessidades para cuidar daqueles que já deixaram as instalações médicas.

O contágio do coronavírus tornou-se um desastre e uma tragédia para as dezenas de milhares de infectados e as dezenas de milhões que permanecem em quarentena, chocando pessoas em todo o mundo.

Ontem, Pequim e Xangai anunciaram novos controles sobre o movimento de moradores e veículos, incluindo rastrear e colocar em quarentena qualquer pessoa que esteve em Wuhan ou em outra área altamente infectada nos últimos 14 dias. Ambas as cidades se juntaram a pelo menos outras 80 em 20 províncias que foram bloqueadas parcial ou totalmente, afetando pelo menos 103 milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, as pessoas na China voltaram a trabalhar ontem após o feriado prolongado do Ano Novo Lunar. A população está agora recomeçando a viajar sob observação extraordinária. O governo instalou câmeras infravermelhas para medir a temperatura corporal em estações de transporte público, escritórios, fábricas e parques industriais. Os residentes foram aconselhados a não saírem de casa se não tiverem uma máscara cirúrgica. Várias cidades, incluindo Wuhan e Pequim, criaram zonas especiais de quarentena onde pessoas suspeitas de estarem infectadas estão sendo obrigadas a ficar. Foram divulgadas ameaças de que as pessoas que violarem a quarentena poderão enfrentar a pena de morte.

Atualmente, há preocupações de que os suprimentos essenciais estejam acabando em Wuhan e em outros lugares da província de Hubei. Até hoje, o governo chinês enviou 17.000 profissionais de saúde e mais de 3.000 toneladas de suprimentos para a província, o que diminuiu um pouco a pressão enfrentada por médicos e enfermeiros, embora os leitos hospitalares ainda sejam escassos. No entanto, lugares como Cingapura, onde há 45 casos confirmados, estão considerando apenas hospitalizar os casos mais sérios. “Se ainda hospitalizarmos e isolarmos todos os casos, nossos hospitais ficarão sobrecarregados”, admitiu o primeiro-ministro de Cingapura, Lee Hsien Songon, no sábado.

As observações de Lee foram acompanhadas de relatos de que o vírus provavelmente é mais disseminado do que o oficialmente conhecido. Neil Ferguson, especialista em doenças infecciosas do Imperial College de Londres, escreveu no domingo que “apenas 10% ou menos de todas as infecções na China e um quarto em outros países estavam sendo detectadas”. Um artigo publicado pelo epidemiologista chinês Zhong Nanshan na segunda-feira propôs que a incubação do novo coronavírus pode levar até 24 dias, e não os 14 dias atualmente aceitos. Essa posição ganhou mais peso quando um paciente na província chinesa de Henan foi diagnosticado com o novo coronavírus após não apresentar sintomas por 17 dias.

Houve uma manifestação de solidariedade da população mundial desde que a China começou a impor a quarentena. Milhares de campanhas no GoFundMe e outros sites parecidos foram criadas para enviar dinheiro e suprimentos para as áreas afetadas. Médicos e outros profissionais de saúde começaram vários esforços para encontrar uma cura para o 2019-nCoV enquanto trabalham para cuidar e curar as pessoas atualmente infectadas. Ao mesmo tempo, as dezenas de milhões que estão nas zonas de quarentena têm feito tudo o que podem para limitar a propagação da infecção, inclusive se isolando o máximo possível, mesmo quando seus empregadores exigiram que voltassem ao trabalho.

A simpatia dos trabalhadores e jovens ao redor do mundo em relação à China é ainda mais significativa diante dos crescentes antagonismos nacionais. Em um comentário particularmente cruel, o diretor de investimentos de fundos hedge, Kyle Bass, tuitou no domingo: “Devemos pegar nossos suprimentos e voltar para casa. Que o vírus chinês invada as fileiras do GT [jornal estatal Global Times] e o resto do Partido Comunista.”

O comentário de Bass veio pouco mais de uma semana depois que o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, regozijou-se de que o surto do novo coronavírus prejudicaria a China como concorrente econômico e daria às empresas dos EUA “mais uma coisa a considerar quando analisarem sua cadeia de suprimentos... Então, acho que ajudará a acelerar o retorno de empregos para a América do Norte.” O próprio Departamento de Comércio declarou: “Também é importante considerar as ramificações de se fazer negócios com um país que tem uma longa história de encobrir real riscos para o seu povo e para o resto do mundo.”

A resposta do governo dos Estados Unidos ao coronavírus foi proibir a entrada de estrangeiros que estiveram recentemente na China, enquanto impõe quarentena a seus próprios cidadãos pela primeira vez desde a década de 1960. Também cobrou US$ 1.000 de passagem aérea para repatriar seus cidadãos para os EUA e supostamente está cobrando tanto por qualquer tratamento de que necessitam quanto pela estadia obrigatória em bases militares.

As respostas ao redor do mundo seguiram as mesmas linhas draconianas. Em toda a Ásia, as empresas afixaram cartazes declarando que os cidadãos chineses não são bem-vindos, forçando os chineses que vivem no exterior a se descreverem como coreanos ou genericamente “asiáticos” para conseguirem serviços essenciais. Os cidadãos australianos na China que deixam o país estão sendo enviados para a Ilha Christmas, uma instalação remota no Oceano Índico construída para aprisionar os chamados refugiados “ilegais”. Ontem, a Grã-Bretanha declarou o coronavírus uma “ameaça iminente”, permitindo ao governo deter e colocar em quarentena qualquer pessoa suspeita de estar infectada.

No Brasil, que possui oito casos suspeitos e nenhum confirmado de coronavírus, o governo de direita do presidente Jair Bolsonaro decretou em 4 de fevereiro estado de emergência de saúde pública. Os 34 brasileiros resgatados da China foram isolados em uma base aérea, onde permanecerão pelos próximos 15 dias. Uma das poucas coisas que eles poderão fazer é assistir a banda militar da base aérea tocar ao vivo.

As empresas farmacêuticas já estão buscando lucrar com as tentativas de encontrar uma cura para a doença provocada pelo novo coronavírus, com algumas ações subindo até 110% depois de anunciarem suas próprias equipes para desenvolver uma vacina. Eles não estão lutando para proteger os seres humanos, mas para obter uma parcela maior do mercado global de assistência médica de US$ 8,54 trilhões.

As respostas contrastantes entre as pessoas comuns e as elites dominantes em todo o mundo colocam a questão de que tipo de sistema social é necessário não apenas para conter, mas para prevenir e eliminar o perigo de pandemias globais. Centenas de bilhões de dólares são gastos anualmente pelos Estados Unidos e pela China em seus orçamentos de defesa, enquanto distribuem de má vontade quantias sempre decrescentes para instituições médicas e científicas que poderiam deter o coronavírus e outros surtos se fossem financiados adequadamente.

Como os trabalhadores e jovens de todo o mundo perceberam, a resposta a doenças contagiosas deve acontecer através das fronteiras nacionais. Como em qualquer outro problema social – incluindo a crescente desigualdade social, a aceleração das mudanças climáticas e a crescente ameaça de guerra – a epidemia de coronavírus é um problema global que requer uma solução internacional. Além disso, a luta contra a propagação de tais doenças não deve ser refém das corporações e dos acionistas que só trabalham para encontrar uma vacina quando podem lucrar com os mortos e doentes.

A resposta à epidemia de coronavírus expôs a incompatibilidade do sistema capitalista de estado-nação com as necessidades humanas mais fundamentais. Impulsionado pelas divisões nacionais e pela disputa pelo poder geopolítico, o sistema capitalista de estado-nação é incapaz de oferecer qualquer resposta sistemática ou planejada às ameaças que a humanidade enfrenta, desde as doenças infecciosas passando por condições climáticas extremas até as mudanças climáticas.

Portanto, é fundamental que aqueles alarmados com o surto do novo coronavírus se voltem para a classe trabalhadora. É a classe trabalhadora que sofreu o impacto da epidemia. É a classe trabalhadora que se define objetivamente e cada vez mais como uma classe internacional. É a classe trabalhadora cujos interesses sociais estão no socialismo: a derrubada do capitalismo, a abolição da propriedade privada dos meios de produção e o estabelecimento de um sistema econômico baseado na satisfação das necessidades humanas, incluindo os mais altos padrões de vida e saúde de todo ser humano.

A ciência, a tecnologia e a capacidade produtiva existem para resolver os grandes problemas sociais do nosso tempo: pandemias, aquecimento global, destruição de empregos, desigualdade social, ataques aos direitos democráticos e ameaça de guerra mundial. Ao mesmo tempo, o planejamento democrático racional e coordenado da economia mundial pode garantir um aumento nos padrões de vida e na qualidade de vida da população mundial. A única força social que pode alcançar esse objetivo é a classe trabalhadora internacional, através do método da revolução socialista mundial.

Bryan Dyne