O conflito na fronteira Índia-China e o quadro inflamável da geopolítica mundial

19 Junho 2020

Publicado originalmente em 18 de junho de 2020

Um confronto na segunda-feira à noite, que deixou dezenas de militares indianos e chineses mortos, levantou o alerta para a possibilidade de uma guerra total entre os dois países mais populosos do mundo e potências nucleares rivais.

Desde o conflito, tanto Pequim quanto Nova Déli se comprometeram a retirar suas forças militares posicionadas em zonas próximas às fronteiras em disputa, e chegar a uma solução diplomática pacífica à rivalidade em torno dos territórios reivindicados. Mas ambas seguem inflexíveis quanto à responsabilização do oponente pelo início do conflito – o primeiro confronto fatal entre tropas indianas e chinesas em 45 anos – e a exigência de que o outro lado deve ceder.

Após uma conversa por telefone na quarta-feira entre o ministro das Relações Exteriores indiano S. Jaishankar e seu homólogo chinês, Wang Yi, Nova Déli emitiu uma declaração acusando Pequim de ser responsável "pela violência e pelas baixas", e disse que "a necessidade do momento" é que "o lado chinês reavalie suas ações e tome medidas corretivas".

Pequim respondeu com uma declaração dizendo que Wang exigiu à Índia "que puna severamente os responsáveis" pela conduta "violenta" e "aventureira" dos militares indianos", "controle rigorosamente" suas "tropas na linha de frente e cesse imediatamente todas as ações provocativas". A declaração acrescentou que a Índia "não deve subestimar a firme vontade da China de salvaguardar a sua soberania territorial".

Após uma reunião ontem entre o Ministro da Defesa e o alto comando militar da Índia, o país elevou ao máximo o nível de alerta às dezenas de milhares de efetivos do Exército e da Força Aérea posicionados ao longo da disputada fronteira com a China. A Marinha indiana, por sua vez, foi instruída a se preparar para possíveis confrontos com navios de guerra e submarinos chineses.

Também na quarta-feira, Narendra Modi, o primeiro-ministro supremacista hindu de extrema-direita da Índia, fez um discurso televisivo no qual prometeu que "o sacrifício de nossos soldados não será em vão... A Índia quer a paz, mas, se provocada, é capaz de dar uma resposta à altura".

A disputada fronteira entre Índia e China, com 3.500 km de extensão, corta o terreno inóspito dos Himalaias. Os combates de segunda-feira à noite tiveram como cenário um estreito cume a mais de 4.260 metros acima do nível do mar.

Entretanto, sob condições de uma crise sistêmica do capitalismo mundial e uma consequente escalada do conflito interimperialista e entre grandes potências, a disputa da fronteira sino-indiana se funde à rivalidade estratégica dos EUA com a China, potencializando enormemente seu caráter explosivo e investindo-a com enorme significado geopolítico global.

Ao longo da última década e meia, a vendida elite capitalista indiana integrou a Índia à ofensiva estratégico-militar dos EUA contra a China. Sob o governo Modi, Nova Déli abriu suas bases militares aos navios e aviões de guerra norte-americanos e desenvolveu uma rede, que segue em expansão, de alianças militares bilaterais, trilaterais e quadrilaterais com Washington e seus principais aliados da Ásia-Pacífico: Japão e Austrália.

Pequim respondeu impulsionando sua estreita parceria de segurança com o histórico arquirrival da Índia, o Paquistão. Isso incluiu a construção de oleodutos, ferrovias e estradas de ligação da China ocidental ao porto de Gwadar, no mar Arábico do Paquistão, com o objetivo de neutralizar os planos dos EUA de sufocar economicamente a China dominando os pontos de estrangulamento do Oceano Índico e do mar do Sul da China. O Corredor Econômico China-Paquistão passa pela região chinesa de Aksai Chin, próximo ao local dos combates de segunda-feira, e em território que o governo do Partido Bharatiya Janata (BJP) de Modi provocativamente reafirmou como um território histórico da Índia em agosto passado.

Até o momento, a resposta do governo Trump ao confronto de segunda-feira na fronteira se limitou a declarações frias expressando apoio a uma resolução pacífica do conflito. Contudo, durante o mês anterior, Washington promoveu publicamente Nova Déli, denunciando "agressões" chinesas contra a Índia.

E mais, o fez como parte de uma escalada massiva de ofensiva econômica, diplomática e militar do imperialismo norte-americano contra a China, cuja lógica conduz à guerra. Ela inclui:

* A culpabilização de Pequim pela perda de centenas de milhares de vidas nos EUA pela COVID-19, resultado de sua própria negligência e incompetência, numa tentativa evidente de desviar a raiva da população, mas também com o objetivo de justificar a agressão contra Pequim;

* O envio de três porta-aviões na semana passada ao Pacífico ocidental, onde irão operar em águas próximas à China continental;

* O lançamento de uma campanha para "desacoplar" a economia norte-americana da chinesa, pressionando as empresas norte-americanas a retirar suas operações da China. Com o objetivo de explorar ainda mais a Índia para os objetivos estratégicos dos EUA, Trump e o Secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo promoveram publicamente enfaticamente a Índia como um polo alternativo à China para a cadeia de produção manufatureira global;

* A intensificação de sua campanha de pressão aos países para barrar a Huawei, a principal empresa de alta tecnologia da China, de suas redes 5G, e para impedir a emergência da China como concorrente nas indústrias de alta tecnologia.

* O fornecimento de armamento avançado a Taiwan e a ameaça implícita de retirar apoio à "política de uma só China ".

* E a expansão massiva em sua construção de armas nucleares, que ameaça tanto a China como a Rússia.

Além disso, em meio à pandemia, o governo Trump intensificou as sanções e a pressão militar sobre o Irã e a Venezuela, e deu luz verde aos planos de Israel de anexar a Cisjordânia.

A disputa da fronteira indochinesa é apenas um dos inúmeros focos de conflito globais onde a agressão dos EUA tem incitado ou agravado conflitos entre Estados e os transformado em potenciais catalisadores de uma conflagração global.

Indignada com a recusa dos EUA em entrar em negociações significativas ou relaxar de alguma forma suas sanções econômicas punitivas, a Coréia do Norte explodiu, na segunda-feira, seu escritório de relações com a Coréia do Sul.

Os rivais imperialistas dos EUA, por sua vez, também responderam à pandemia e ao maior abalo econômico do capitalismo mundial desde a Depressão dos anos 1930, intensificando seus preparativos para a guerra. No caso da Alemanha e da França, isso significa acelerar o impulso para formar um exército europeu que possa assegurar suas demandas por mercados, recursos naturais e territórios estratégicos, independentemente e, quando necessário, contra os Estados Unidos.

Escrevendo no Die Welt na semana passada, o Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, Josep Borell, e o Comissário da UE para o Mercado Interno, Thierry Breton, declararam que "as crescentes tensões entre os Estados Unidos e a China" demonstram a necessidade de um "poder forte" europeu, para que possa "exercer sua influência, impor sua visão de mundo e defender seus próprios interesses".

A pandemia da COVID-19 está servindo como acelerador de todos os males que se espalharam pelo capitalismo global nas últimas quatro décadas e, especialmente, desde 2008: o crescimento voraz da desigualdade social, do militarismo e da guerra, o esfacelamento das formas democráticas de governo e a promoção da reação e reabilitação da extrema-direita pela elite capitalista.

Também está atuando como acelerador da luta de classes global. Nos estágios iniciais da pandemia – e em condições em que os governos, após semanas sem fazer nada para deter a propagação da COVID-19, impuseram apressadamente medidas de contenção improvisadas – houve uma aparente diminuição dos protestos sociais. Entretanto, as manifestações multirraciais e multiétnicas que irromperam nos EUA em resposta ao assassinato policial de George Floyd e posteriormente se espalharam pelo mundo, ressaltam que a onda de greves e protestos massivos anti-governos que se intensificaram em 2018 e 2019 foram apenas os estágios iniciais de uma contraofensiva de massas, incipientemente revolucionária, da classe trabalhadora mundial.

A resposta da elite capitalista à pandemia, particularmente nos países imperialistas da América do Norte e da Europa – sua negligência criminosa, assalto maciço aos bens públicos, e agora sua campanha para forçar os trabalhadores a voltar ao trabalho mesmo quando a COVID-19 continua a se espalhar – produziu uma catástrofe social. Ao mesmo tempo, desmascarou a brutalidade, a falência político-ideológica e a imoralidade de uma ordem capitalista moribunda.

Nessas condições, há um perigo real e crescente de que as elites dominantes capitalistas, assoladas por irremediáveis problemas econômicos e políticos e enfrentando crescente oposição social, vejam no conflito militar uma saída – um meio de suprimir a luta de classes e promover a "unidade nacional", através da combinação entre o patriotismo chauvinista frenético e a repressão estatal, legitimada como "necessidade de guerra".

A Índia é um exemplo importante. A resposta calamitosa da elite indiana à pandemia – um lockdown mal preparado; a recusa em tomar medidas de saúde básicas, como testes em massa; e agora uma "reabertura da economia" – resultou em 120 milhões de desempregados e uma taxa de crescimento de casos de COVID-19 entre as mais altas do mundo. Ontem, enquanto a mídia indiana homenageava os 20 soldados indianos mortos, a contagem oficial de mortes pela COVID-19 aumentou em 2.003, mais de 20%.

Aproveitando-se de uma oposição desmoralizada e cúmplice, Modi e seu BJP têm utilizado insistentemente o comunalismo raivoso, o nacionalismo belicoso e os "ataques cirúrgicos" inconsequentes contra o Paquistão para desviar a oposição social, alimentar a reação e dividir a classe trabalhadora.

Mas, em nenhum lugar, a ameaça de um governo e uma classe dominante em crise serem "tentados" pela guerra é mais palpável do que nos Estados Unidos. O imperialismo norte-americano é hoje conduzido por um oligarca com ideias fascistas e pretenso ditador de segunda classe, sua elite política está em guerra consigo mesma, seu poderio militar massivo continua sendo sua única força residual sobre seus rivais e, por último e mais importante, enfrenta cada vez mais a oposição combativa da classe trabalhadora.

A intensificação da crise capitalista global e da luta de classes tornam a luta contra a guerra ainda mais urgente. A única força social que pode deter a guerra é a classe trabalhadora internacional. Mas isso exige que o caráter cada vez mais global de suas lutas se torne uma estratégia consciente e a mobilize como força política independente na luta pelo poder dos trabalhadores e pelo socialismo. Convocamos todos os leitores do WSWS a se unirem a nós na luta para armar a classe trabalhadora com essa compreensão.

Keith Jones