A convenção do Partido Republicano: Quatro noites de imundície fascista

29 Agosto 2020

Publicado originalmente em 25 de agosto de 2020

A Convenção Nacional do Partido Republicano, que começou ontem à noite, deve ser considerada um sério alerta para a classe trabalhadora. Esse evento tem um caráter abertamente fascista. Ela está colocando em evidência as forças mais reacionárias da vida estadunidense: racistas, antissemitas, anticomunistas ferozes e militaristas.

Tal é o caráter apodrecido do sistema político oficial, em que as escórias da humanidade são televisionadas por horas em horário nobre e são tratadas seriamente como uma parte legítima da vida pública. Essas forças têm uma perspectiva muito real de consolidar sua posição à frente do mais poderoso estado imperialista do planeta.

Tiradas contra o socialismo e apelos abertos ao racismo e à xenofobia são vomitados através das ondas de rádio com pouca ou nenhuma oposição por parte dos meios de comunicação. Pelo contrário, uma rede de televisão, a Fox, dedica-se inteiramente à disseminação de tais pontos de vista, enquanto as outras oferecem pouco mais do que correções sem entusiasmo, como se um programa de propaganda fascista de quatro dias exigisse apenas um pouco de verificação de fatos.

A noite de abertura da convenção confirma o perigo contra o qual o WSWS e o Partido Socialista pela Igualdade têm constantemente alertado: Donald Trump e o Partido Republicano estão procurando estabelecer um movimento autoritário e personalista, uma forma estadunidense de fascismo, que esmagaria os opositores através do uso da força bruta.

Trump não possuí uma perspectiva puramente eleitoral. Seu discurso na convenção foi em si mesmo uma demonstração disso, já que teve como objetivo principal impulsionar a histeria antissocialista em sua base de direita e justificar a ação preventiva da polícia e das forças militares, bem como das forças paramilitares de ultradireita.

Em relação à campanha eleitoral, Trump não espera convencer a maioria da população estadunidense a apoiá-lo. Ele não ganhou no voto popular em 2016, e é o primeiro presidente dos EUA a passar um mandato inteiro sem nunca ter tido o apoio, em uma única pesquisa de opinião, da maioria da população do país.

Trump pretende criar um ambiente no qual haja incerteza suficiente sobre o resultado da eleição – seja alegando fraude maciça, sabotagem direta do voto por correspondência ou se esforçando para interromper a votação presencial através da mobilização da polícia, xerifes e agentes de imigração nas urnas – que possa levá-lo a reivindicar a manutenção do poder.

Nenhum democrata respondeu à declaração de Trump, feita na semana passada, de que o resultado da eleição pode ser desconhecido durante semanas ou mesmo meses após o encerramento da votação em 3 de novembro. Isso só demonstra a impotência e a falta de seriedade do Partido Democrata.

Não é que haja um amplo apoio na população dos EUA aos pontos de vista fascistas de Trump. Muito pelo contrário, a tendência é para a esquerda, particularmente entre os trabalhadores e a juventude. Mas há um sentimento generalizado e completamente justificado de que o Partido Democrata não é uma alternativa e não oferece nada aos trabalhadores.

Milhões de trabalhadores rejeitam a grande mentira da convenção do Partido Republicano – a alegação de que Trump mobilizou uma resposta eficaz à pandemia do novo coronavírus que infectou quase seis milhões de pessoas nos EUA e matou mais de 180.000. Os Estados Unidos têm 4% da população mundial, mas 25% dos casos de COVID-19 e 23% das mortes pela doença. Em sua resposta incapaz, corrupta e insensível à pandemia, a administração Trump e a classe dominante dos EUA têm demonstrado o completo fracasso do capitalismo estadunidense.

O perigo enfrentado pelos trabalhadores não vem da força inerente ao campo de Trump, mas do peso morto do Partido Democrata, que procura suprimir a oposição real de baixo ao aspirante a Mussolini na Casa Branca – as greves e paralisações de professores, trabalhadores da indústria automotiva e de centros de armazenamento e distribuição desencadeadas pela pandemia e os enormes protestos populares inéditos contra a violência policial e o racismo.

Ao invés de dizer o que está acontecendo – que Trump está se movendo para estabelecer um regime autoritário – e apelar para o povo dos EUA contra ele, os democratas procuram cortejar frações do próprio Partido Republicano: antigos governadores, senadores e agentes da inteligência militar foram enviados à convenção que nomeou Joe Biden e Kamala Harris.

Ao mesmo tempo, eles procuram dividir a classe trabalhadora segundo linhas raciais, continuamente contrapondo raça a classe e culpando os brancos como um todo pela discriminação racial e pela violência que são produto do capitalismo e do estado capitalista. Esta ênfase na identidade racial (e de gênero) realmente dá a Trump e a ultradireita uma abertura para fazer um apelo aos trabalhadores brancos que enfrentam a destruição de seus empregos e padrões de vida sob o impacto da pandemia do coronavírus e o colapso econômico que ela desencadeou.

Trump ganhou as eleições presidenciais em 2016 porque o Partido Democrata fez questão de demonstrar sua hostilidade à classe trabalhadora, particularmente no Meio -Oeste industrial, o ponto focal da destruição de empregos e salários durante os oito anos da administração Obama-Biden.

O voto democrata colapsou não apenas em áreas rurais e de pequenas cidades da classe trabalhadora, mas em cidades como Milwaukee, Detroit e Filadélfia, fazendo com que Trump ganhasse nos estados de Wisconsin, Michigan e Pensilvânia e chegasse à Casa Branca.

Com a nomeação direitista de Biden-Harris, o Partido Democrata está concorrendo às eleições de 2020 com a mesma estratégia de 2016, não fazendo nenhum apelo à classe trabalhadora e procurando consolidar ainda mais sua posição como o partido preferido de Wall Street e do aparato de inteligência militar.

Em sua primeira entrevista conjunta desde a convenção, Joe Biden e Kamala Harris apareceram na ABC News na noite de sexta-feira. Durante quase uma hora, eles não fizeram nenhuma menção à pobreza, fome, falta de moradia ou ao corte do subsídio de desemprego federal suplementar de 600 dólares por semana do qual cerca de 28 milhões de trabalhadores, demitidos por causa da pandemia do coronavírus, dependiam para sua sobrevivência.

Ignorando o sofrimento econômico que une milhões de trabalhadores de todas as raças e gêneros, os democratas agem como se não houvesse uma crise grave, em um país onde quase 200.000 morreram vítimas da pandemia e 28 milhões estão desempregados. Trump tem um programa – a supressão forçada das contradições sociais através de métodos fascistas. Os democratas não têm nenhum programa, exceto para alegar que os horrores do capitalismo seriam mais toleráveis se fossem provocados por uma escolha mais “diversificada” de governantes.

O Partido Socialista pela Igualdade leva a sério a luta contra Trump e o fascismo. Por isso mesmo, nos opomos e rejeitamos totalmente a política do Partido Democrata e de todos os seus defensores políticos, desde os defensores liberais da política de identidade, passando pelos sindicatos corruptos até os ex-radicais da pseudoesquerda. Trump não pode ser combatido sem um programa socialista que mobilize a classe trabalhadora, potencialmente a força mais poderosa da sociedade, em uma base de classe.

Trump aponta constantemente para o aumento dos índices Dow Jones Industrial Average, S&P500 e NASDAQ. Neste sentido, ele está sendo honesto: ele tem governado o país segundo o interesse de Wall Street. Os democratas representam a mesma base social, mas procuram esconder esse fato da classe trabalhadora, mesmo quando o dinheiro dos grandes bancos e da bolsa de valores inunda os cofres da campanha de Biden.

O papel essencial do Partido Democrata é o de estrangular a oposição social contra o capitalismo. Todos eles são a favor da oposição a Trump, desde que isso não colida com os interesses sociais de Wall Street. Mas o crescente movimento da classe trabalhadora em oposição ao capitalismo fornece a única base possível para uma verdadeira luta contra Trump e a oligarquia financeira da qual ele é o representante mais corrupto e reacionário.

Patrick Martin