A vitória do MAS na Bolívia e as armadilhas do nacionalismo burguês na América Latina

Por Tomas Castanheira
27 Outubro 2020

Publicado originalmente em 27 de outubro de 2020

Na última sexta-feira, o Tribunal Eleitoral da Bolívia oficializou a vitória em primeiro turno de Luis Arce do Movimiento al Socialismo (MAS) nas eleições presidenciais realizadas em 18 de outubro. Arce tomará posse no próximo 8 de novembro, um ano após o anterior presidente Evo Morales, também do MAS, ter sido derrubado por um golpe militar com apoio dos Estados Unidos.

O regime do golpe liderado pela presidente autoproclamada Jeanine Áñez já havia reconhecido a vitória expressiva de Arce, mesmo que, antes das eleições, ela tenha declarado que uma possível vitória do MAS significaria "a volta da ditadura" e tenha mobilizado forças militares para preparar um possível novo golpe eleitoral.

O candidato presidencial de ultradireita, Luis Fernando Camacho, que sustentou por alguns dias que não tomaria a mesma atitude "covarde" de Áñez, acabou reconhecendo Arce como presidente nesta sexta-feira. O Comitê Cívico de Santa Cruz, organização de caráter fascista à qual Camacho está ligado, ficou isolado em sua denúncia de uma fraude eleitoral e desvinculou-se, por sua vez, de um chamado a uma paralisação de 48h pela anulação das eleições, que foi debilmente realizada apenas pelo "grupo de choque" União Juvenil Cruceñista (UJC).

Presidente eleito do MAS, Luis Arce (direita) ao lado do vice David Choquehuanca. (Crédito: Facebook)

O retorno do MAS ao poder na Bolívia está sendo celebrado por seus homólogos na América Latina, os desmoralizados partidos nacional burgueses que estiveram à frente dos governos da chamada "Maré Rosa" dos anos 2000, como uma virada política na região.

No Brasil, declarações como essa foram emitidas por diferentes líderes do Partido dos Trabalhadores (PT), que governou o maior país da região de 2002 a 2016, quando a presidente Dilma Rousseff foi derrubada por um impeachment baseado em acusações forjadas.

A figura icônica do PT, o ex-presidente Luís Inácio "Lula" da Silva, declarou no Twitter: "Que a Bolívia retorne ao caminho do desenvolvimento com inclusão e soberania". Sua sucessora, Dilma, conclamou: "Que a vitória inspire os povos de nosso continente que sofrem com regimes neoliberais e autoritários".

A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, acompanhou o processo eleitoral boliviano enquanto observadora internacional e concluiu que "não teve nenhum incidente relevante", apesar de relatar uma presença massiva das Forças Armadas nas ruas, que justificou ser "um pouco tradição aqui".

Na Venezuela e em Cuba, países com os quais o regime de Áñez cortou relações oficiais, a vitória do MAS foi celebrada pelos herdeiros de Hugo Chávez e Fidel Castro. O presidente chavista Nicolás Maduro comemorou: "Grande vitória! O povo boliviano unido e consciente derrotou com votos o golpe de Estado que deram em nosso irmão Evo". Arce já declarou que irá reestabelecer imediatamente as relações com Cuba e Venezuela.

O peronista Alberto Fernandez, presidente da Argentina, onde Evo Morales se encontra exilado desde dezembro, declarou que a vitória do MAS "é uma boa notícia para nós que defendemos a democracia na América Latina". Morales disse que Fernandez "me ofereceu, levar-me pessoalmente até a Bolívia", retorno que diz estar programando junto a Arce para até o próximo final de semana.

O ex-presidente do Equador, Rafael Correa, condenado a oito anos de prisão por corrupção, e Fernando Lugo, presidente do Paraguai derrubado por um golpe em 2012, também comemoraram a vitória de Arce. Lugo declarou: "Este enorme triunfo é um farol de exemplo e esperança para toda nossa América!".

Entretanto, o que essas forças políticas buscam caracterizar como o retorno da democracia, de políticas de diminuição da desigualdade social e até mesmo de uma nova era de prosperidade econômica contrasta com a situação real de extrema instabilidade no país.

Áñez entregará para o MAS a presidência de um país atravessado pela luta de classes. Os protestos rebeldes que sacudiram a Bolívia ao longo dos últimos meses, e mesmo a votação esmagadora pelo MAS e contra os candidatos da direita que apoiaram o golpe, expressaram o ódio dos trabalhadores e camponeses contra o regime repressivo e ilegítimo.

Mas as razões fundamentais desses conflitos sociais estão no repúdio das massas bolivianas ao aprofundamento de sua miséria, que, diferentemente do que afirmam o MAS e seus apoiadores, não se resolveu com o "milagre econômico" do governo de Morales. O período final de sua presidência foi confrontado por crescentes lutas sociais e greves da classe trabalhadora, que tiveram suas reivindicações negadas pelo governo e foram respondidas com repressão estatal.

O programa do novo governo do MAS será centrado na promoção da "pacificação em todo o país" e a construção de um "governo de unidade nacional", nas palavras do próprio presidente eleito Luis Arce. Isto é, trabalhará pela supressão da luta de classes e pela conciliação com os setores fascistas da burguesia boliviana que haviam derrubado Morales.

Em uma longa entrevista transmitida no sábado por Piedra Papel y Tinta, Arce expressou claramente o conteúdo reacionário de suas políticas capitalistas. Com uma retórica nacionalista de "reativação da economia" com base na "substituição de importações", defendeu os ataques promovidos pelos governos da burguesia contra a classe trabalhadora ao redor do mundo.

Questionado se, diante de desafios como "a pandemia, a crise, a relação com Brasil", considerava implementar "medidas de choque" na economia, Arce respondeu: "Não, medidas corretas". As "medidas corretas" defendidas por Arce assemelham-se assustadoramente à política violenta promovida pelo presidente fascista do Brasil, Jair Bolsonaro, contra a classe trabalhadora deste país vizinho.

Citando um relatório do Banco Mundial sobre a pandemia, Arce afirmou: "A Bolívia é o país que seguiu de forma mais estrita a quarentena e tudo o mais. Em outros países houve um balanceamento. A questão da saúde é importante, mas também houve flexibilidade com a questão econômica, para que a queda não fosse tão dura".

Arce atacou o governo de Áñez, não por sua brutal política de fome contra as massas bolivianas, mas por ter "priorizado a saúde em detrimento da economia". "Por outro lado", afirmou, "outros países, o Peru e até mesmo o Brasil… foram mais flexíveis do ponto de vista econômico, de modo que o golpe não fosse tão forte na economia. E eles foram bem sucedidos".

Os governos criminosos do Brasil e do Peru, escolhidos como modelos por Arce, tiveram sucesso exclusivamente em obter os resultados mais devastadores da pandemia.

O Peru é o país com mais mortes de COVID-19 por habitante no mundo. Já o Brasil, com quase 160 mil vítimas da doença, tem o segundo maior total de mortes no planeta. A classe trabalhadora de ambos os países sofre com o intenso aumento do desemprego e o rebaixamento de suas condições de existência.

Como um defensor dos interesses da classe capitalista boliviana, o MAS é incapaz de promover políticas de caráter progressista. O golpe militar do ano passado foi uma reação política desta classe social às profundas contradições que abalam seu domínio sobre a sociedade, impulsionadas pela crise global do capitalismo e pelo crescimento das pressões imperialistas sobre a região latino americana.

Essas condições de crise apenas se intensificaram ao longo do último ano, marcado pelo impacto da pandemia global. Esses desenvolvimentos produzirão necessariamente novas e maiores explosões da luta de classes, que serão desesperadamente combatidas pelo novo governo do MAS, enquanto as forças fascistas preparam-se para novas investidas ditatoriais.

Os problemas fundamentais das massas trabalhadores latino americanas – a violência estatal, a miséria e a opressão pelo imperialismo –não podem ser enfrentados através do apoio a nenhum partido da burguesia nacional, independente do quão de "esquerda" sejam suas pretensões. A classe trabalhadora deve combater frontalmente essas forças burguesas e seus apologistas da pseudoesquerda.

Expressando os interesses da classe média afluente, que busca a estabilidade da dominação capitalista, os morenistas da chamada Fração Trotskista (FT-CI) defenderam, como inúmeros outros grupos do mesmo caráter, que a vitória do MAS na Bolívia representa um "revés para Bolsonaro e a direita continental", nas palavras de seu líder parlamentar argentino Nicolás Del Caño.

Um artigo proeminente em seu website La Izquierda Diario, celebrando a "derrota dos golpistas na Bolívia", afirmou: "Esta derrota da direita continental poderia se ampliar se como tudo indica, Trump perder as eleições em 3 de novembro".

Do seu apoio ao MAS, eles tiram a conclusão lógica que os interesses da classe trabalhadora latino americana estão conectados à vitória de Joe Biden nas eleições da próxima semana nos EUA, trocando um partido capitalista por outro no comando do imperialismo americano.

Não importa que Biden como senador tenha sido um dos arquitetos do Plano Colômbia, a operação policial-militar que tirou a vida de milhares de colombianos e deixou centenas de milhares sem casa. Nem que ele foi vice-presidente de um governo que orquestrou um golpe, muito semelhante ao ocorrido na Bolívia, uma década antes em Honduras, com a derrubada do presidente Manuel Zelaya. Este mesmo governo democrata introduziu o regime de sanções punitivas contra a Venezuela e seu líder, Barack Obama, ganhou o título de "deportador em chefe".

O fato de os morenistas estarem apoiando na prática a eleição de um experiente político imperialista como meio de derrotar "a direita continental" deixa claro que eles não possuem nenhuma ligação com a luta pelo socialismo.

Em oposição implacável a essas tentativas grosseiras de desviar os trabalhadores para o beco sem saída da política eleitoral burguesa e subordinar seus interesses aos do capital nacional e internacional, o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) avança a perspectiva da mobilização política independente da classe trabalhadora baseada em um programa socialista e internacionalista.

 

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