Os apoiadores da pseudoesquerda de Biden e a falência da política do “mal menor”

5 Novembro 2020

Publicado originalmente em 31 de outubro de 2020

Três dias antes do fim da votação nas eleições presidenciais, os Estados Unidos estão em meio a uma crise social, econômica e política sem precedentes. A pandemia do coronavírus, que já tirou a vida de 235.000 americanos, está se espalhando rapidamente, com o número de novos casos em níveis recordes. Dezenas de milhões de pessoas estão desempregadas e enfrentam a fome, a pobreza e a falta de moradia. Trump, que está atrás nas urnas, conspira para permanecer no poder ignorando ou derrubando os resultados do voto popular e incentivando a violência fascista nas ruas.

Nessas condições, o Partido Democrata e os meios de comunicação ligados a ele insistem que toda a energia dos trabalhadores e da juventude deve ser direcionada para a eleição de Joe Biden.

O candidato democrata à presidência Joe Biden fala em um centro de formação sindical em Hermantown, no estado de Minnesota, em 18 de setembro de 2020 (Crédito: AP Photo/Carolyn Kaster)

Essa orientação não vem apenas dos próprios Democratas, mas também de organizações supostamente “socialistas” ou de esquerda que orbitam o partido. A liderança dos Socialistas Democráticos dos EUA (DSA) distribuiu uma carta no início deste mês se comprometendo a fazer de tudo para garantir uma votação tão grande quanto possível em Biden. Em uma discussão on-line com o presidente do Conselho Editorial Internacional do WSWS, David North, na quarta-feira à noite, Adolph Reed Jr., um dos principais acadêmicos de esquerda e membro dos DSA, insistiu: “Obviamente, precisamos fazer tudo o que for possível para tentar obter a vitória de Biden”.

O argumento da “esquerda” para apoiar Biden foi resumido em um artigo de opinião publicado no New York Times na terça-feira. Escrito pelo jornalista independente Zeeshan Aleem, o artigo foi publicado na edição impressa do jornal com o título: “Por que os socialistas devem votar em Biden”.

A decisão do Times, o principal jornal do Partido Democrata, de solicitar o artigo a Aleem expressa o medo da classe dominante da crescente oposição popular ao capitalismo e a hostilidade aos partidos Republicano e Democrata. Trata-se de uma tentativa de reunir argumentos para serem usados para conter e desviar essa raiva.

Não há nada de original nos argumentos de Aleem. A política da classe média é, via de regra, determinada pelos cálculos mais míopes e pragmáticos. Incapazes de basear suas políticas numa análise científica dos fundamentos econômicos da sociedade, hostis a qualquer exame sério dos interesses de classe que determinam as ações do Estado, contrários a um exame crítico dos programas dos partidos políticos e, especialmente, indignados com qualquer tentativa de tirar lições da história na formulação de estratégias e táticas, os representantes políticos da pequena burguesia andam a reboque da elite dominante.

Sua dependência econômica da elite dominante se reflete em sua incapacidade de formular um programa e orientação política independente. Essas conhecidas características reacionárias da política de classe média, para as quais os marxistas têm chamado frequentemente a atenção, geralmente encontram sua expressão mais miserável e covarde em sua atitude em relação às eleições. Todas as pretensões de independência política em relação à política da elite corporativa-financeira – mesmo aquelas que têm sido promovidas com frases socialistas – são abandonadas. A política do “mal menor” é anunciada como uma necessidade inevitável.

“Se você pensasse em um pesadelo para a esquerda socialista”, começa Aleem, “seria difícil pensar em alguém mais terrível do que o Presidente Trump”. No entanto, ele escreve preocupado que “em alguns setores da esquerda há sinais de hesitação em votar em Joe Biden”.

“As pessoas de esquerda”, insiste, não deveriam apenas votar em Biden, mas deveriam fazê-lo com entusiasmo. “A política”, escreve, “é sobre o equilíbrio de poder na sociedade – entre capital e trabalho, entre as “elites” e os “marginalizados”.

Como, exatamente, um voto em Biden vai transferir o poder na sociedade do capital para o trabalho e das “elites” para os “marginalizados”? Completamente ausente do artigo de Aleem está qualquer análise real do que o Partido Democrata é e dos interesses de classe que representa.

O Partido Democrata é um partido de Wall Street e dos militares. De fato, com a aproximação das eleições, a arrecadação eleitoral de Biden se beneficiou de um aporte de dinheiro da indústria financeira, que contribuiu com mais de US$ 50 milhões para a campanha dos Democratas no terceiro trimestre, contra US$ 10 milhões para Trump. O site Politico publicou um artigo recente sobre a atitude dos mercados em relação às eleições: “Enquanto Trump alerta sobre o desastre econômico, Wall Street se inclina a Biden”.

Nos últimos quatro anos, a oposição do Partido Democrata a Trump concentrou-se não em sua política fascista, mas na demanda de frações dominantes ligadas aos militares e às agências de inteligência por uma política externa mais militarista contra a Rússia e no Oriente Médio, culminando com o fiasco do impeachment.

Biden tem o apoio de alguns dos principais criminosos de guerra do imperialismo americano, que causaram estragos aos “marginalizados” em todo o mundo: John Negroponte, ex-embaixador dos EUA em Honduras durante a guerra apoiada pelos EUA contra os sandinistas, ex-embaixador no Iraque e ex-diretor da inteligência nacional; Michael Hayden, ex-diretor da CIA envolvido na construção de centros de tortura clandestinos sob Bush; Colin Powell, um dos principais arquitetos da invasão do Iraque em 2003; e inúmeros outros.

Essa é a campanha que Aleem afirma que os socialistas devem apoiar “sem desculpas ou constrangimentos – e mesmo com algum entusiasmo”.

De acordo com Aleem, a eleição de Biden produzirá um “terreno político mais propício à mudança”, criando condições para que “os socialistas continuem defendendo e exigindo um sistema de atendimento médico universal” e um “Green New Deal”.

A política de uma administração Democrata, entretanto, não será de reforma social, mas de austeridade brutal. Aleem desconsidera que os oito anos do governo Obama, no qual Biden foi vice-presidente, não foram anos de reforma social, mas de uma transferência maciça de riqueza para os ricos após a crise econômica e financeira de 2008. De fato, foi o legado de Obama, juntamente com o caráter de direita e militarista da campanha de Hillary Clinton, que permitiu a Trump se colocar demagogicamente como um opositor do status quo.

Aleem também não menciona – assim como nenhum dos apoiadores de Biden – que o Partido Democrata apoiou, quase unanimemente, o resgate multitrilionário de Wall Street em março, a chamada Lei CARES. Para pagar essa transferência de riqueza para os ricos, a classe dominante exige que os trabalhadores voltem ao trabalho e arrisquem suas vidas para obter lucros.

Os democratas não propõem nada para enfrentar nem a propagação da pandemia nem a enorme crise social e econômica que tem sido produzida por ela, a não ser que todos usem máscara. Significativamente, entre as palavras que não aparecem uma vez no artigo de Aleem estão “pandemia”, “coronavírus”, “desemprego”, “pobreza”, “fome” ou “sem-teto”. Também não há nenhuma referência à guerra e ao militarismo.

Aleem afirma que uma votação maciça em Biden “poderia também influenciar o resultado de disputas locais acirradas” e “ajudar a garantir que os Democratas recuperem o controle do Senado”. Mas quem são esses Democratas em desvantagem nas “disputas locais acirradas”? Como o WSWS documentou amplamente, muitos dos candidatos e atuais deputados do Partido Democrata no Congresso vieram das agências de inteligência militar.

Há ainda a alegação de que eleger os democratas é necessário para combater as “ameaças únicas que o Sr. Trump coloca à democracia”, inclusive através de sua “politização do Departamento de Justiça e chamados para a repressão violenta de protestos”. Uma “mobilização maciça da esquerda” é necessária, escreve Aleem, “dadas as tentativas de manipulação [de Trump] e seu questionamento da legitimidade do voto por correio”.

De fato, Trump não está apenas questionando a legitimidade do voto por correio, ele está tentando organizar um golpe de Estado para estabelecer uma ditadura presidencial. Longe de se oporem às conspirações fascistas de Trump, no entanto, os Democratas têm feito tudo o que podem para encobrir o que está acontecendo e impedir uma mobilização contra ele. Nas últimas semanas das eleições, os democratas não se opuseram à nomeação de Amy Coney Barrett para a Suprema Corte, onde ela deverá julgar os pedidos de Trump contestando os resultados da eleição.

Nos últimos quatro anos, os Democratas têm trabalhado para bloquear a oposição popular a Trump, começando com a infame declaração de Obama de que as eleições são um “jogo interno” entre dois lados de “uma só equipe”. Os Democratas estão aterrorizados em fazer ou dizer qualquer coisa que encoraje a resistência popular a Trump, porque esta resistência poderá se desenvolver em um movimento mais amplo contra a classe dominante e o sistema capitalista que defende.

Em sua coluna no Times, Aleem se refere a “uma visão muito marginal na esquerda” que se opõe ao apoio a Biden. Aqui, ele se refere claramente ao Partido Socialista pela Igualdade (PSI) e ao World Socialist Web Site. Ele falsifica a posição dos verdadeiros marxistas, no entanto, afirmando que eles sustentam “que a eleição de reacionários como o Sr. Trump intensifica a crise que vai inspirar as pessoas a se voltarem para o socialismo e defendem ignorar as urnas ou votar em candidatos de outros partidos”.

Isso é uma grande mentira, e Aleem sabe disso. Na verdade, os marxistas insistem que uma verdadeira luta contra a administração Trump e a ascensão da extrema-direita só é possível através da mobilização independente da classe trabalhadora em oposição ao Partido Democrata.

Finalmente, Aleem afirma que a “esquerda” está “investindo em seu próprio futuro eleitoral ao levar a sério o voto para o Sr. Biden”. Ao se tornar “um eleitorado consistente e não uma ameaça periódica à potencial participação nas eleições, [a esquerda] terá mais influência sobre o establishment do partido”.

Este é o argumento mais desonesto de todos. Enquanto os Democratas fazem tudo o que podem para bloquear a oposição a Trump, eles são impiedosos quando se trata da oposição da esquerda. Nas eleições de 2020, os democratas intervieram para bloquear os esforços do Partido Socialista pela Igualdade para participar das eleições em Michigan, Califórnia e outros estados, insistindo que tínhamos que reunir dezenas de milhares de assinaturas em meio a uma pandemia. Em Michigan, o governo estadual controlado pelo Partido Democrata, um dos alvos centrais da conspiração do golpe de Trump, está até procurando impedir a contagem dos votos por escrito para a campanha do PSI.

Quanto à alegação de Aleem de que figuras como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez conseguiram empurrar o Partido Democrata para a esquerda, isso também é uma mentira. Na verdade, quanto mais Sanders se incorpora à liderança do Partido Democrata, maior é o desprezo com que ele e seus apoiadores são tratados. De fato, Biden aproveita todas as oportunidades que pode para declarar que foi ele quem “derrotou o socialista”.

Aleem conclui dizendo: “Uma esquerda sofisticada e estratégica – uma esquerda que se esforça para chegar ao poder – sabe como escolher suas lutas e seus adversários”. Votar em Biden, afirma, “é uma das formas mais simples e tangíveis de inclinar o tabuleiro e oferecer alguma proteção aos vulneráveis... Os socialistas deveriam lutar intensamente para colocar o Sr. Biden na presidência – e depois lutar intensamente contra ele no dia em que se tornar presidente”.

A tentativa de subordinar a oposição dos trabalhadores e da juventude ao Partido Democrata não tem nada a ver com “chegar ao poder” ou a alcançar o socialismo, mas sim impedi-lo. No final, os “socialistas” de que Aleem fala, aqueles que “investem” em seu futuro, são aspirantes a agentes dentro do Partido Democrata, que querem um “socialismo” que não envolve nenhuma mudança nas relações de propriedade e nenhuma redistribuição de riqueza, que não propõem nada além de pequenas reformas que nunca serão alcançadas, e que procuram acima de tudo voltar as coisas ao que eram.

Se Biden chegar ao poder, essas pessoas não “o combaterão intensamente”. Respondendo a essa declaração no evento da Universidade Estadual de San Diego, North disse: “Como você pode ‘lutar intensamente’ para eleger um político capitalista, dizer aos trabalhadores para votar nele, independentemente de qual seja seu programa, e depois dizer que você deve lutar intensamente quando ele estiver no poder? Logo o argumento será que temos que garantir que a direita não volte ao poder, porque, se Biden se for, teremos os fascistas.”

No limite, o argumento de Aleem e de incontáveis outros apoiadores do Partido Democrata é: Isto é tudo o que temos. Não há nada de “sofisticado ou estratégico” nesse tipo de política. É o mesmo argumento que tem sido utilizado em todas as eleições durante décadas. Assim, a prostração de hoje diante do Partido Democrata é justificada em relação à consequência da prostração de ontem.

A situação enfrentada pelos trabalhadores nos Estados Unidos e em todo o mundo nestas eleições é urgente. Trump representa uma fração da oligarquia que, em condições de crise sem precedentes desencadeada pela pandemia do coronavírus, está se voltando abertamente a formas de governo fascistas e autoritárias. Trump, no entanto, não surgiu do nada. Ele não é um demônio do inferno, mas um produto do capitalismo americano.

A solução para a crise segundo os interesses da classe trabalhadora depende da construção de uma direção política socialista. Toda a experiência histórica tem demonstrado que nada é mais destrutivo para o desenvolvimento da consciência de classe da classe trabalhadora do que dizer aos trabalhadores em uma eleição que eles deveriam votar no partido capitalista “menos pior”.

Longe de evitar o perigo da reação e da ditadura, a política do “mal menor” à sua própria maneira intensifica esse perigo, servindo para desarmar a classe trabalhadora e deixá-la completamente despreparada para o que está por vir, quem quer que esteja na Casa Branca em janeiro. A tarefa não é oferecer soluções superficiais e falsas para a crise, mas basear a própria política numa análise científica da natureza da crise e dos interesses independentes da classe trabalhadora.

Nestas eleições, o Partido Socialista pela Igualdade faz um chamado a todos os seus apoiadores a votar por escrito em Joseph Kishore e Norissa Santa Cruz para presidente e vice-presidente, e a partir daí tomar a decisão de se juntar ao Partido Socialista pela Igualdade e construir um verdadeiro movimento revolucionário, internacionalista e socialista da classe trabalhadora.

Joseph Kishore – Candidato do PSI a presidente dos EUA

 

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