MAS inaugura governo de direita na Bolívia

Por Tomas Castanheira
11 Novembro 2020

Luis Arce, do Movimiento al Socialismo (MAS), assumiu a presidência da Bolívia no último domingo. A cerimônia de posse teve a presença de líderes mundiais, entre eles o Rei Felipe VI da Espanha e o vice-presidente espanhol Pablo Iglesias do Podemos, representantes do governo dos EUA e do Irã, e vários líderes latino americanos.

A posse também reuniu milhares de pessoas na Praça Murillo, na capital La Paz, incluindo delegações sindicais, de movimentos sociais e populações indígenas de diferentes partes da Bolívia.

Em seu discurso inaugural, Arce mencionou aqueles que morreram nos massacres de Senkata e Sacaba há um ano, que foram abandonados pelo MAS enquanto combatiam o golpe que derrubou Evo Morales. Ele também saudou seus eleitores, em suas palavras, os "heróis do povo que recuperaram a democracia".

O presidente eleito, que foi ministro da economia do governo Morales de 2006 a 2017, atacou o regime do golpe de Jeanine Áñez por ter lançado a economia boliviana numa "recessão profunda". Afirmou que ela levou a Bolívia da "liderança do crescimento econômico na América do Sul" à "queda mais forte da economia nos últimos 40 anos".

Ele concluiu seu discurso reforçando seu compromisso em não somente proteger os setores da burguesia que encabeçaram o golpe, mas de governar junto a eles:

"Apesar de nossas diferenças, temos a obrigação de estar à altura das exigências do povo por unidade, paz e certeza ... Acredito e apoio o fortalecimento das instituições do Estado e a criação de um ambiente seguro e estável onde os únicos a temer são os infratores, os criminosos, os violentos e aqueles que cometem atos de corrupção."

Evo Morales (Crédito: www.kremlin.ru)

O vice-presidente, David Choquehuanca, evocou as tradições indígenas do país e empregou fraseologia pseudoradical para defender a forte orientação à direita do novo governo. Afirmando que "nossa revolução é a revolução de ideias, é a revolução de equilíbrios", ele declarou: "vamos promover a coincidência de opostos para buscar soluções entre a direita e a esquerda".

Sintetizando a linha política corrupta do MAS, Choquehuanca declarou: "Nossa verdade é muito simples, o condor levanta voo somente quando sua asa direita está em perfeito equilíbrio com sua aza esquerda".

Desde a vitória eleitoral de Arce, o retorno à Bolívia de Evo Morales, criminalizado pelo regime do golpe, era uma questão controversa. Significativamente, o presidente deposto não foi convidado a participar da cerimônia de posse de seu sucessor, e não foi mencionado por Arce em seu discurso.

Morales voltou à Bolívia na segunda-feira, um dia após a posse de Arce. Ele saiu da Argentina, onde estava exilado desde dezembro, ao lado do presidente argentino Alberto Fernandez, que o acompanhou até a fronteira com a Bolívia. Lá, Morales foi recebido por centenas de argentinos e bolivianos, e saiu em caravana pelo país ao lado do ex-vice-presidente Álvaro Garcia.

No mesmo dia em que Morales entrou na Bolívia, o novo governo inaugurou seu gabinete ministerial. Os 16 ministros apontados por Arce foram saudados pela imprensa boliviana como um grupo de tecnocratas com pouco em comum com Evo Morales.

As escolhas de Arce revelaram seu compromisso com a promoção dos interesses da classe dominante capitalista boliviana. Em um breve discurso, ele apontou: "Este será um governo extremamente austero".

A nomeação do ministério gerou críticas e protestos no interior do próprio MAS. David Apaza, representante do MAS em El Alto – uma cidade com histórico de combates da classe trabalhadora, e um centro importante do partido – afirmou que a base do partido foi pega de surpresa com os ministros escolhidos por Arce.

Apaza declarou, segundo o Página Siete: "Lamentavelmente, a lista foi fechada sem consenso nem consulta". O dirigente do MAS também advertiu: "El Alto não servirá mais uma vez de escada [para o governo pisar]. Caso algo aconteça, serão eles os culpados por não atender o povo de El Alto".

Os familiares do dirigente sindical mineiro assassinado, Orlando Gutierrez, também protestaram contra a nomeação como ministro da Mineração de Ramiro Guzmán, um ex-diretor geral da Empresa Metalúrgica Vinto, exigindo que o ministério seja entregue ao irmão de Gutierrez. Segundo Mario Cruz, um delegado de base dos mineiros de Colquiri, a população apoia o pedido da família e pode marchar até a sede do governo caso a demanda não seja atendida.

A escolha do gabinete também foi criticado pela Central Operária Boliviana (COB), que se comprometeu com a eleição de Arce. Seu presidente, Carlos Huarachi, afirmou: "O povo tinha a expectativa de ver um homem de poncho, de chulo, de guartatojo, ou uma mulher de pollera. Esse é o pedido do povo, das pessoas que lutaram, das pessoas comuns que estiveram nas ruas, nas estradas, lutando para recuperar a democracia".

Semanas antes de sua posse, Arce já havia sinalizado que contrariaria os interesses de setores de seu partido e organizações aliadas de se apropriar de fatias da máquina estatal. Ele afirmara: "Encontrei-me com várias organizações sociais e calculei que deveria ter 149 ministérios, [porque] todos eles pedem por ministérios".

Além da busca por seus interesses mesquinhos, os protestos dessas organizações contra os novos ministros expressam também a forte pressão que sofrem das massas. Ao longo dos últimos meses, elas traíram as lutas de massas contra o regime do golpe de Áñez. O MAS, os sindicatos e os movimentos sociais do Pacto de Unidade trabalharam para desviar a revolta dos trabalhadores e camponeses bolivianos para uma saída eleitoral, que resultou no governo burguês de "unidade nacional" encabeçado por Arce.

O caráter direitista do novo governo já está se mostrando nos primeiros dias da gestão de Arce. Os líderes do MAS e suas organizações aliadas têm toda razão para crer que serão logo confrontados por um novo levante do movimento revolucionário da classe trabalhadora boliviana.

 

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