"Será preciso a classe trabalhadora para detê-los"

Trabalhadores denunciam o golpe de Trump

Por Nossos repórteres
8 Janeiro 2021

Operários da indústria automobilística, professores, aposentados e outros setores da classe trabalhadora reagiram com indignação à invasão do Capitólio americano por apoiadores fascistas do presidente Trump na quarta-feira à tarde, interrompendo à força a certificação da vitória presidencial de Biden. O ataque, que ocorreu logo após a mesma multidão ter assistido a um discurso incendiário de Trump em frente à Casa Branca, foi uma tentativa de golpe de Estado de Trump para reverter os resultados das eleições e estabelecer uma ditadura presidencial.

O World Socialist Web Site e o Partido Socialista pela Igualdade (PSI) estão alertando os trabalhadores aos perigos levantados por este acontecimento e promovendo uma campanha para mobilizar a classe trabalhadora para derrotar os esforços ditatoriais, em oposição tanto ao fascista Trump como a seus oponentes anêmicos do Partido Democrata.

Policias do Capitólio diante das grades instaladas ao redor do edifício na quinta-feira, 7 de janeiro, 2021, em Washington. (AP Photo/John Minchillo)

David North, secretário nacional do PSI e presidente do Conselho Editorial Internacional do WSWS, escreveu na perspectiva O Golpe Fascista de 6 de Janeiro: "Os eventos de 6 de janeiro de 2021 devem ser tomados como uma advertência. A classe trabalhadora deve elaborar uma estratégia política e um plano de ação para derrotar os esforços futuros para impor uma ditadura".

Ele prosseguiu: "É essencial construir uma rede de comitês de base nas fábricas e locais de trabalho capaz de organizar uma ampla resistência popular através da mobilização de todos os setores da classe trabalhadora.

"Acima de tudo, os trabalhadores devem entender que o desmantelamento da democracia americana está enraizado na crise do capitalismo. Em uma sociedade marcada por níveis assombrosos de desigualdade social, preservar a democracia é impossível". North terminou com um apelo aos leitores do WSWS se unirem ao Partido Socialista pela Igualdade.

Entre os trabalhadores, existe um amplo apoio a esse programa. Muitos que conversaram com o WSWS expressaram apoio a uma contra-ofensiva de massas da classe trabalhadora para exigir a prisão de Trump e dos que conspiraram junto a ele.

"É preciso tirar o Trump e trazer mudanças", disse um motorista de ônibus de Detroit. "Ele incitou um motim. Nunca ouvi falar, em toda minha vida, de um presidente que tenha feito isso nos seus últimos dias no cargo sem receber nenhum tipo de punição. Ele está fazendo tudo o que é contrário à [democracia]. Sou só um operador de ônibus, mas precisamos juntar muita gente para fazer uma mudança significativa para melhor".

Sua noiva acrescentou: "Isso mostra que ninguém tem nenhum controle sobre Trump. Ele definitivamente não está fazendo isto sozinho. E não é uma questão de cor. Sempre se tratou de poder e controle. Agora é pior porque eles se sentem ameaçados.

"Biden fez a pior coisa que podia fazer [pedindo a Trump que fosse à TV]. Bem, ele pegou aqueles cinco minutos e tomou a iniciativa. Do jeito que Trump falou na TV, deixou claro ser o líder da quadrilha. Ele disse: ‘Eu fui roubado, continuem’. Até meu filho de 7 anos vê o que está acontecendo. Ele disse: 'Mãe, por que eles não colocaram Donald Trump na cadeia?’. Meu filho de 14 anos disse que o diretor da escola falou para eles não discutirem o assunto. Mas isso é história, e a história precisa ser discutida. As pessoas precisam saber conhecer a história.

"Precisamos da participação de trabalhadores das empresas automotivas, médicos e enfermeiras, professores; todas o povo trabalhador. Eu quero fazer a diferença. Muitas coisas precisam ser abordadas, a COVID em primeiro lugar. Se todos nos unirmos, podemos fazer o planeta tremer".

"Acho que isto é muito sério. As pessoas que estavam protestando em Washington estão sendo usadas por Trump para fazer isso, como se já estivesse planejado", disse um trabalhador da montadora da Ford em Kansas City ao World Socialist Web Site. "Eles estão violando a democracia e as eleições livres.

"Trump está chamando uma insurreição há bastante tempo. O Partido Democrata não fez nada para detê-lo. Eu nunca vi nada parecido. Estou preocupado com o que pode acontecer a partir de hoje.

"Alguns trabalhadores parecem entender o que está acontecendo. Na noite passada um trabalhador da fábrica me disse que sentia que 'algo iria acontecer' hoje”.

Criticando a hipocrisia do establishment político americano, ele continuou: "Como você pode invadir outros países e dizer que é contra a ditadura e depois, olhe em volta — estamos prestes a jogar a democracia pela janela".

Muitos de seus colegas na Ford repudiaram a covardia do Partido Democrata, que implorou a Trump que pedisse a seus apoiadores para voltarem para casa, e apelou à unidade com os republicanos mesmo depois do motim fascista.

"Muitos trabalhadores estavam assistindo TV mais cedo na sala de descanso, e algumas pessoas não conseguiram nem assistir ao que o Biden estava falando", referindo-se a um discurso em que Biden apelou a Trump para desencorajar seus partidários. "Trump foi quem iniciou a coisa e [Biden] disse a Trump para ir falar com as pessoas protestando na frente do Capitólio.

"Acho que será preciso a classe trabalhadora para detê-los. Os responsáveis não são apenas os republicanos ou os democratas. São todos eles, a elite, os ricos. Você chega à conclusão de que nenhum dos partidos é para o bem da classe trabalhadora. As pessoas vão ter que ver isso.

"Eu sei que o WSWS meses atrás já falava sobre como algo assim poderia acontecer. Acho que cada vez mais pessoas devem estar ligadas no WSWS".

Muitos trabalhadores mencionaram o imenso contraste entre o tratamento que a Polícia do Capitólio deu aos partidários de Trump da extrema-direita, a quem permitiu romper as barreiras de segurança praticamente sem resistência, e a repressão estatal esmagadora usada nos protestos contra a violência policial.

"As pessoas precisam saber que as pessoas que invadindo o Capitólio são a fonte da violência, não nós", disse um mecânico de aeronaves na Pensilvânia. "Parece que é uma força policial totalmente diferente lidando com essas pessoas hoje” do que durante os protestos por George Floyd no verão, ele falou. "Esses policiais devem ter recebido todo tipo de treinamento de sensibilidade de uma hora pra outra", acrescentou sarcasticamente.

Um operador de processos de produção do Kansas disse: "O que vem imediatamente à mente é o forte contraste entre as ações das forças policiais nas manifestações do BLM e a indiferença da polícia do Capitólio em conter, quanto mais impedir a invasão à força do Capitólio. Li hoje que nem mesmo durante a Guerra Civil a bandeira da Confederação entrou no prédio do Capitólio. Bem, ela entrou hoje".

Um trabalhador da montadora da Fiat Chrysler de Sterling Heights, perto de Detroit, disse: "Todos na fábrica ficaram em choque com o que estava acontecendo. O contraste entre a forma como os policiais trataram os fascistas e como trataram os manifestantes contra a violência policial foi algo que todos comentaram ontem na fábrica. A polícia permitiu que isso acontecesse. Dito isso, isso não é uma guerra racial. Se tem gente falando em ‘privilégio branco’, é porque não entenderam o ponto. Isso é um ataque contra a classe trabalhadora".

"Somos nós que temos que detê-lo", ele continuou. "Trump está mobilizando seus apoiadores, mas nós podemos fazer o mesmo. Às vezes é preciso grandes choques para colocar os trabalhadores em movimento, mas isso é o que está acontecendo agora. As pessoas estão sendo educadas por esses eventos".

"Em Ferguson, a polícia e os militares tinham franco-atiradores no telhado", disse uma funcionária do Estado aposentada. "Eu me lembro de Rodney King, eles o espancaram até ficar desfigurado. Hoje, os Proud Boys entraram no Capitólio e interromperam a contagem do Colégio Eleitoral e a certificação da eleição, e não foram presos. Isso só lhes dará um estímulo. Irá expandir o seu público e a fonte de novos membros à organização. Isso foi para eles um sucesso e sequer foram presos".

Ela acrescentou: "A caracterização desse evento pela NBC como algo que geralmente acontece em 'terras distantes' ignora completamente o fato de que as terras das quais eles falam são terras onde o imperialismo americano foi cúmplice deste tipo de evento. Em El Salvador, Guatemala, Chile, Irã e outros países, políticos democraticamente eleitos foram derrubados e substituídos por fantoches dos EUA".

"O Estado burguês é totalmente corrupto, e eles não conseguem mais escondê-lo", concluiu. "Isso foi exposto".

"Acredito sinceramente que a extrema direita e companhia encaram a invasão do Capitólio como uma revolução", disse um repositor de mercado da Califórnia. "Dito isso, se enquadra totalmente como terrorismo doméstico.

"O que me surpreende, no entanto, é que quando eu estava falando sobre isso tudo com os colegas de trabalho, a gerência apareceu aqui para me dizer para ‘baixar a bola’ ... que significa em termos empresariais calar os trabalhadores, para que não causem transtornos à ‘troca pacífica de bens e serviços’”.

Uma operária da montadora da Fiat Chrysler em Jefferson North chamou a classe trabalhadora a se mobilizar para derrotar a extrema direita. "Ou os trabalhadores tomam uma posição agora ou serão escravos para sempre. Isso é tudo. Os fascistas estão na casa do povo. É como os nazistas queimando o Reichstag [o edifício do Parlamento alemão] em 1933. É democracia ou fascismo e é hora de tomar uma posição. Se alguém invadisse sua casa, isso seria considerado invasão doméstica — e adivinhe? Eles estão na sua casa".

"Agora é a hora", concluiu ela. "Isto não é brincadeira. E qual é a resposta do Partido Democrata? Porcaria nenhuma! Biden não vai fazer nada, ele não tinha nada a dizer hoje, os democratas concordam com os republicanos em praticamente tudo. Tudo o que os democratas têm feito é manter essa merda de imunidade do rebanho enquanto todos nós morremos. Isso é ridículo. Já basta".